CARISMAS - parte 1

 1. INTRODUÇÃO
Os carismas eram comuns no início da Igreja. Bas­ta ler os Atos dos Apóstolos e as cartas de São Paulo. Depois, por alguns séculos eles se mantiveram restritos aos grandes santos. Assim, pensava-se que os carismas eram para alguns homens e mulheres reconhecidamen­te santos, místicos e penitentes.
Os Carismas, portanto não são novidades trazidas pela Renovação Carismática Católica, a não ser no as­pecto do seu exercício nos tempos atuais. Foi o docu­mento conciliar Lumen Gentium que traçou as primei­ras diretrizes sobre carismas para os tempos atuais:
“...Não é apenas através dos sacramentos e dos ministérios que o Espírito Santo santifica e conduz o Povo de Deus (...), mas, repartindo seus dons a cada um como lhe apraz (I Cor 12,11), distribui entre os fiéis de qualquer classe mesmo graças especiais (...) Estes carismas, quer eminentes, quer mais simples e mais amplamente difundidos, devem ser recebidos com gratidão e consolação, pois que são perfeita­mente acomodados e úteis às necessidades da Igre­ja. Uma vida mais plena no Espírito Santo, a unção carismática do Espírito Santo, contempla a Igreja com toda uma amplitude de dons.”
Esses dons de adoração, louvor e oração apro­fundam a dimensão contemplativa da fé cristã e as dádivas de serviço animam a vida de santidade. “To­dos os carismas trazem nova docilidade ao Espírito, a fé esperançosa na salvadora intervenção de Deus nas questões humanas, acentuado zelo pelo Evan­gelho e o respeito pela autoridade da Igreja.”
Nesse sentido, é necessário afirmar a atualidade dos carismas e promovê-los como realidades necessá­rias à evangelização e ao crescimento pessoal de cada cristão. “A vida batizada no Espírito é marcada por uma experiência de união dinâmica com Deus e também por uma experiência de carismas doados pelo Espírito San­to.”
São Pedro aviva essa esperança: “Pois a promessa é para vós, para os vossos filhos e para todos os que ouvirem de longe o apelo do Senhor, nosso Deus” (At 2,39). A promessa é, portanto, para todos os tempos.
Contém abalizar dons efusos, que é matéria deste estudo, dos dons infusos,que também são carismas do Espírito, mas que se distinguem daqueles:
a. Dons infusos — temor de Deus, fortaleza, piedade, conselho, conhecimento, sabedoria e discer­nimento (cf. Is 11,1-3). Num total de sete, esses dons são concedidos para a pessoa (infundidos), aprimoram e reforçam as virtudes, constituindo-se em benefícios para o crescimento pessoal;
b. Dons efusos — línguas, profecia, interpreta¬ção, ciência, sabedoria, discernimento dos espíritos, cura, fé e milagres (cf. I Cor 13,8-10). Num total de nove, es­ses dons são para o serviço e o bem comum e são con­cedidos como manifestações atuais, de acordo com a vontade de Deus.

Aqui serão estudados os carismas efusos, que são realidades manifestas nos grupos de oração da Reno¬vação Carismática, constituindo-se num dos as­pectos de sua identidade:

2. CONCEITO
Os carismas são dons, graças, presentes, dados pelo Espírito Santo, “mas um e o mesmo Espírito dis­tribui todos esses dons, repartindo a cada um como lhe apraz” (ICor 12,11):
“A palavra ‘carisma (chárisma) é oriunda da língua grega e significa ‘dom gratuito’. Ela encontra seu signifi­cado fundamental na raiz ‘char’ que indica tudo aquilo que produz bem-estar; assim é que temos cháris, que­rendo significar ‘graça’, ‘dom, ‘favor, ‘bondade’; charí­zomai, no sentido de fazer um dom gratuito, mostrar-se generoso. O sufixo ‘-ma’ exprime na língua grega o re­sultado da ação indicada pelo verbo, o seu efeito, o que pode denotar também o caráter objetivo da concessão e da experiência da graça. Portanto, o significado geral e fundamental de ‘chárisma’ poderia ser: dom concedi­do por pura benevolência, que é, ao mesmo tempo, o objetivo e o resultado da graça divina, do presente que Deus faz aos homens.”6
Em sentido restrito, os carismas são manifesta­ções extraordinárias do Espírito Santo para proveito comum7. Eles exercem papel fundamental na evange­lização. Padre Luiz Fernando R. Santana aprofunda o assunto e alerta:
“ Paulo tem em alta estima a presença e ação dos dons e carismas do Espírito na vida da Igreja e dos fiéis batizados, até mesmo exortando a co¬munidade a que tivesse o cuidado de não extinguir o Espírito, de não desprezar as profecias, mas de verificar tudo com um discernimento sábio e sóbrio (cf. I Ts 5,19-22). Disso in­ferimos que, para Paulo, os carismas e os ministérios são os instrumentais privilegiados na edificação do Corpo de Cristo e na realização do desígnio de Deus na histó­ria; ambas as realidades possuem igual im¬portância e dignidade, uma vez que emanam do mesmo Espírito e estão ordenadas, cada uma na¬quilo que lhe é específi­co, a um mesmo fim.”8
Pelo seu próprio caráter, dom não implica santidade. Na verdade, qualquer pessoa pode rece­ber os presentes de Deus (cf. At 10,34). Porém, não se pode esquecer que quem não tem vida espiritual e reta intenção de agradar a Deus, certamente usará mal os carismas, pois não cultiva a necessária união com Cris­to (cf. Jo 15,4-5), para querer o que Deus quer.

3. QUANDO UTILIZAR OS CARISMAS
E difícil precisar em que momentos utilizar os carismas do Espírito. O seu exercício é quase sempre oportuno, sobretudo quando as situações o exigem. Sendo a graça do Espírito uma realidade perene na vida humana, os carismas por sua vez, tornam-se também profusamente inseridos na vida daqueles que foram batizados.
No entanto, é preciso dizer que os carismas são re­alidades atuais e não adquiridas por posse. E o Es¬pírito que opera tudo em todos (cf. I Cor 12,6-7), a seu querer (I Cor 12,8-10). Não seria justo, portanto, atribuir a uma pessoa ou grupo de pessoas específico a contenção exclusiva de qualquer manifestação carismática; nem mesmo se pode dizer que alguém “tem” este ou aquele dom, pois cada manifestação é única, mesmo que se processe com muita frequência através de determina­das pessoas. Talvez ao dom de línguas possa se atribuir um caráter mais perene e sob controle, por se tratar de um dom de oração, mais para edificação pessoal (cf. I Cor 14,4).
Contudo, não se pode cair no equívoco de reduzir os dons do Espírito a algumas ocasiões especiais. Eles foram dados em profusão nos tempos atuais. Pode ser cultivada uma constante expectativa em relação à sua manifesta­ção, como para o derramamento do Espírito.
A missão da Renovação Carismática Católica é evangelizar a partir do batismo no Espírito Santo, for­mando o povo de Deus em santidade e serviço. Para evangelizar o povo de Deus com unção e poder são ne­cessários os carismas.
“A ‘força do Espírito Santo’ (At 1,8) derramada nos corações dos cristãos, manifestação do amor e do poder de Deus, provoca uma significativa diferença entre a ação evangelizadora de uma pessoa que se deixa conduzir por ela e uma que age sem ela. Aquele que evangeliza com os dons carismáticos multiplica as possibilidades humanas. A investidura carismática em comunidades da Igreja, em todo mundo, tem gerado e sustentado grande número de evangelistas dedicados eficientes, com novo vigor, com nova capacitação, nova alegria, novo jubilo, nova exaltação e louvor, levando em si o poder transformador do Espírito (cf. I Cor 2,1-5) que toca crianças, jovens, adultos e idosos de todo tipo de raça e cultura”.
O uso dos carismas não é só um direito, é um dever de todos os fiéis. “Da aceitação destes carismas, mes­mo dos mais simples, nasce em favor de cada um dos fiéis (...) o dever de exercê-los para o bem dos homens e a edificação da Igreja dentro da Igreja e do mundo”.
Pode-se constatar na prática apostólica que, quando a evangelização é acompanhada de caris­mas, colhem-se frutos abundantes: os carismas fazem diferença e são eficazes na evangelização, quando exercidos na caridade.

Fonte: Revista Renovação - Boletim 43

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