CARISMAS - parte 2

4. OS DONS EFUSOS E A CARIDADE
Jesus deu o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo” (Jo 15,12.17). São Paulo apresenta o trabalho apostólico realizado no amor. Não um amor qualquer, mas o amor “ágape”, amor doação a Cristo e aos irmãos: (I Cor 13).
Os capítulos 12 a 14 da carta aos Coríntios, que tratam dos carismas e suas manifestações, são verdadeiros referenciais para se viver a vida nova, guiada pelo Espírito Santo, exercendo os seus dons de ma¬neira au­têntica e frutuosa. Eles contêm regras básicas e orien­tações seguras. Outras recomendações podem
ser en­contradas em Ef 4,15.30; Rm 12,6-8; 13,8-10; e I Tess 5,14-15. 19-21.
Jesus dá a regra para verificar o valor do trabalho: “Pelos frutos os conhecereis” (Mt 7,16). São Paulo tam­bém fala: “o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei” (Gl 5,22- 23). Dessa forma, o bom uso dos carismas é garantido pelo amor, que é o dom por excelência e que atribui sentido aos outros dons. Os carismas, portanto, são fundamentados na caridade:
“Sejam extraordinários, sejam simples e humildes, os carismas são graças do Espírito Santo que, direta ou indiretamente, têm uma utilidade eclesial, ordenados que são à edificação da Igreja, ao bem dos homens e às necessidades do mundo. Os carismas devem ser aco­lhidos com reconhecimento por aquele que os recebe, mas também por todos os membros da Igreja. São uma maravilhosa riqueza de graça para a vitalidade apostó­lica e para a santidade de todo o Corpo de Cristo, desde que se trate de dons que provenham verdadeiramen­te do Espírito Santo e que sejam exercidos de maneira plenamente conforme aos impulsos autênticos deste mesmo Espírito, isto é, segundo a caridade, verdadeira medida dos carismas”.

5. OS CARISMAS DEVEM SER PEDIDOS COM FÉ E EXERCIDOS NA HUMILDADE
É exatamente por causa do amor que os dons efu­sos devem ser almejados. A motivação deve ser o uso em benefício dos outros, para ajudar o povo de Deus a alcançar a santidade.
Por isso, os carismas devem ser pedidos com fé e sem temor. Embora eles sejam distribuídos conforme apraz ao Espírito, nada impede que o crente aspire e peça os dons, para que seu testemunho seja permeado de sinais (cf. I Cor 2,4-5). “Só aqueles que reconhecem o valor dos dons na sua vida cristã e no serviço aos irmãos são impulsionados a pedi-los ao Pai, como Jesus mes­mo nos ensinou: ‘Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e acha­reis; batei e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater se lhe abrirá’ (Lc 11,9-10)”.
Para o exercício prático dos carismas, não se deve esquecer três coisas fundamentais:
A. HUMILDADE
Deus constituiu a Igreja como um corpo (cf. I Cor 12,12-29), de tal maneira que um carisma só se pieni­fica no conjunto da comunidade. “Exercer os caris¬mas na humildade é exercê-los sem exibicionismo, sem bus­car prestígio, honra, poder. (...) E também exercê-los sem auto-suficiência (cf. Mt 18,3-4), sem individualis­mo, sabendo que necessitamos da ajuda dos irmãos para confirmar ou discernir a vontade de Deus para o seu povo.. ,”.
B. HARMONIA
O uso dos carismas será tanto mais saudável e útil quanto as pessoas que a eles se abrirem forem equili­bradas emocionalmente e orantes o suficiente para sa­ber distinguir a ação do Espírito de eventuais devaneios da pessoa humana. É necessário ter respeito pêlos dons de Deus; “não podemos exercê-los irresponsável e indiferentemente, com desprezo, de forma inconse­quente, olhando os nossos próprios interesses, ou dan­do aos carismas um relevo tão singular e único como se fossem bens totais e absolutos sobre os quais não há nada mais excelente e primeiro”.
C. ORDEM
A ordem no exercício dos carismas é uma exten­são da harmonia, mas supõe autoridade e obediên­cia. O cristão pode ser instrumento da manifestação autêntica do Espírito Santo, mas não deve esquecer que até o espírito dos profetas deve estar-lhe submisso (cf. I Cor 14,32).
Portanto, os carismas devem ser exercidos na obediência a Cristo e às autoridades constituídas. “Mas faça-se tudo com dignidade e ordem” (I Cor 1.4,40).
6. PALAVRA DA IGREJA
E oportuno destacar algumas asserções do Magis­tério da Igreja em relação aos carismas e seu uso:
a. “O Espírito Santo, ao confiar à Igreja-comunhão os diversos ministérios, enriquece-a com outros dons e impulsos especiais, chamados carismas. Podem assu­mir as mais variadas formas, tanto como expressão da liberdade absoluta do Espírito que os distribui, como em resposta às múltiplas exigências da história da Igre­ja. A descrição e a classificação que os textos do Novo Testamento fazem desses dons são um sinal da sua grande variedade”;
b. “ Também em nossos dias não falta o florescer de diversos carismas entre os fiéis leigos, homens e mulheres. São dados ao indivíduo, mas também podem ser partilhados por outros, e de tal modo perseveram no tempo como uma herança preciosa e viva, que ge­ram uma afinidade espiritual entre as pessoas;
c. “Para exercerem este apostolado (os leigos), o Espírito Santo, que opera a santificação do povo de Deus por meio do ministério e dos sacramentos, con­cede também aos fiéis dons particulares (cf. I Cor 12,7), ‘distribuindo-os por cada um conforme lhe apraz’ (I Cor 12,7-11}, a fim de que ‘cada um ponha em serviço dos outros a graça que recebeu’, e todos atuem ‘como bons administradores da multiforme graça de Deus’ (I Pd 4,10), para a edificação, no amor, do corpo todo. (cf. Ef 4,16). (...) Nenhum carisma está dispensado da sua referência e dependência dos pastores da Igreja. O Con­cílio escreve com palavras claras que o juízo acerca da sua (dos carismas) autenticidade e reto uso pertence àqueles que presidem a Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas julgar tudo e conservar o que é bom (cf. I Ts 5,12 e 19-21), de modo que todos os carismas concorram, na sua diversidade e complementaridade, para o bem comum.
As palavras da Igreja tiram o medo e as dúvidas quanto à necessidade e utilidade dos carismas, bem como o direito que os fiéis leigos têm de usá-los para o bem comum. O Catecismo da Igreja Católica segue a mesma firme orientação:
“O Espírito Santo é o princípio de toda a ação vi­tal e verdadeiramente salutar em cada uma das diver­sas partes do corpo. Ele opera de múltiplas maneiras a edificação do corpo inteiro na caridade, pela Palavra de Deus (...), pelas virtudes, que fazem agir segundo o bem, e, enfim, pelas múltiplas graças especiais (cha­madas de ‘carismas’), através das quais ‘torna os fiéis aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios que contribuem para a renovação e maior in­cremento da Igreja”.
7. CONCLUSÃO
É importante tomar consciência de que todo bem, todo dom, todo serviço prestado ao Reino de Deus em nome de Jesus, acontece sob inspiração do Espíri­to Santo. Sem Ele nada é eficaz para o Reino de Deus. “Nunca será possível haver evangelização sem a ação do Espírito”.
Os grupos de oração não devem ter medo nem resistir aos dons do Espírito, mas procurar conhecê-los cada vez mais para bem utilizá-los.

 Fonte: Revista Renovação - Boletim 43

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