Como sera a Igreja do segundo milenio? – Por Pe. Joseph Ratzinger


Foi publicada recentemente na excelente revista Humanitas, da Universidade Católica de Chile, a transcrição de uma transmissão radiofônica do, então, Pe. Joseph Ratzinger, na ocasião, professor da Universidade de Tubinga. Apesar de pouco mais de quarenta anos, desde quando foram proferidas, suas palavras mantêm toda atualidade.



Desfrutem desta magnífica análise do Professor Ratzinger, e de suas palavras alentadoras para a Igreja de hoje…




[...] O Iluminismo teve seu movimento litúrgico, no qual se tentou simplificar a liturgia, reduzindo-a às suas estruturas fundamentais e originárias; tinha que eliminar os excessos do culto às relíquias e aos santos, e, sobretudo, tinha que introduzir na língua vernácula, especialmente o canto popular e a participação comunitária. O Iluminismo teve seu movimento episcopal, que queria sublinhar, frente a uma centralização unilateral de Roma, a importância dos bispos; teve seus componentes democráticos como, por exemplo, o caso do vigário geral de Constancia, Wessemberg, que exigia sínodos diocesanos e provinciais democráticos. Quem lê suas obras crê encontrar-se com um progressista de nossos dias: pede-se a abolição do celibato, admitem-se somente formulários sacramentais em língua vernácula, abençoam-se matrimônios mistos sem o compromisso da educação dos filhos, etc.

[...] Com isto, chegamos ao nosso hoje, e à reflexão sobre o amanhã. O futuro da Igreja pode vir e virá, também hoje, somente da força daqueles que têm raízes profundas e vivem da plenitude pura de sua fé. O futuro não virá daqueles que só dão receitas. Não virá daqueles que somente criticam aos demais e se tomam a si mesmos como medida infalível. Tampouco virá daqueles que elegem somente o caminho mais cômodo, de quem evita a paixão da fé e declara falso e superado, tirania e legalismo, tudo o que é exigente para o ser humano, o que lhe cauda dor e lhe obriga a renunciar a si mesmo. Digamos isto de forma positiva: o futuro da Igreja, também nesta ocasião, como sempre, ficará marcado, de novo, com o selo dos santos. E, portanto, por seres humanos que percebem mais que as frases que são precisamente modernas.

[...] Será uma Igreja interiorizada, que não suspira por seu mandato político, nem flerta com a esquerda nem com a direita. Resultar-lhe-á muito difícil. Em efeito, o processo da cristalização e a clarificação custarão à Igreja forças preciosas. Fará dela pobre, converter-lhe-á em uma Igreja dos pequenos. [...] Pode-se prever que tudo isto requererá tempo. O processo será longo e laborioso, como também foi longo o caminho que levou dos falsos “progressismos”, em vésperas da revolução francesa – quando também entre os bispos estava de moda ridicularizar os dogmas e talvez, inclusive, dar a entender que nem sequer a existência de Deus era de algum modo segura – até a renovação do século XIX. Mas, depois da prova destas divisões, surgirá, de uma Igreja interiorizada e simplificada, uma grande força, porque os seres humanos serão indizivelmente solitários em um mundo plenamente planificado. Experimentarão, quando Deus tenha desaparecido totalmente para eles, sua absoluta e horrível pobreza. E então descobrirão a pequena comunidade dos crentes como algo totalmente novo. Como uma esperança importante para eles, como uma resposta que sempre buscaram às apalpadelas. Para mim, me parece certo que à Igreja lhe esperam tempos muito difíceis. Sua verdadeira crise apenas começou. Há de contar com fortes sacudidas. Mas eu estou também totalmente certo do que permanecerá ao final: não a Igreja do culto político, que fracassou já em Gobel. Mas a Igreja da fé. Certamente já não será nunca mais a força dominante na sociedade na medida em que o era até pouco tempo atrás. Mas florirá de novo e será visível aos seres humanos como a pátria que lhes dá vida e esperança mais além da morte.


Fonte: www.padredemetrio.com.br

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