Sao Policarpo

São Policarpo de Esmirna
Policarpo, bispo de Esmirna , conheceu, são João apóstolo e outras testemunhas oculares da vida de Cristo. Ele é um contemporâneo dos apóstolos. Ele Inácio de Antioquia eram grandes amigos. Policarpo era antes de tudo um homem de governo e não um bom escritor, como Inácio.

Conhecemos o comovente fim de sua vida graças a um documento que tem a data de 23 de fevereiro de 155. É uma carta da Igreja de Esmirna a Igreja de Deus na Filoméia, e a todas as paróquias da Igreja santa e católica.

Antes de capturar Policarpo, prenderam um jovem chamado Germânico. Pois Germânico fortaleceu pela heróica resistência, no seu maravilhoso combate com as feras, a pusilanimidade de outros. Querendo o cônsul persuadi-lo a ter compaixão da sua juventude, Germânico, ao contrário, com pancadas excitou a fera contra si, na ânsia de livrar-se quanto antes da convivência daquela gente iníqua e criminosa. Por isso o povo, espantado diante do heroísmo dos cristãos, dessa raça que ama a Deus e é amada por ele, gritou: “Abaixo os ateus! (Ateus aqui seriam os cristãos). Tragam Policarpo !”

Policarpo, o mais admirável longe de se perturbar ao receber esta notícia, quis permanecer na cidade. Muitos, entretanto, o persuadiram a retirar – se. E ele se retirou para uma pequena casa de campo, a pouca distância, onde permaneceu, com poucos amigos, nada fazendo senão rezar dia e noite por todos e por todas as igrejas conforme o seu hábito. E quando rezava teve uma visão, três dias antes de ser preso. Viu seu travesseiro pegando fogo. Voltando-se para os que estavam com ele, disse-lhes: “ Devo ser queimado vivo”.

Como prosseguissem em buscá-lo, transferiu-se Policarpo para outra casa de campo. Logo depois chegaram seus perseguidores, e como não o achassem, prenderam dois jovens escravos, um dos quais, vencido pela tortura, lhes deu a indicação. Já então não lhe era mais possível escapar, uma vez que os traidores eram de sua própria casa.

O chefe de polícia, que com razão tinha o nome de Herodes, apressou-se em conduzir Policarpo para o estádio. Assim devia ele obter sua parte na herança do Cristo a quem aderira; ao passo que os traidores, parte no castigo de Judas.

Numa Sexta-feira, mais ou menos pela hora da ceia, partiram os perseguidores com um destacamento de cavalaria, armado na forma habitual, “como se procurassem um ladrão” (Mt 26,55). Servia-lhes de guia um escravo. Chegando alta noite foram encontrar Policarpo no primeiro andar da pequena casa. Teria tido tempo de buscar outro refúgio; mas não o quis, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus”.

Informado da presença dos soldados, desceu e conversou com eles, que ficaram pasmos vendo sua idade e sua calma, e perguntaram entre si por que capturar com tanto empenho um ancião como aquele.

Policarpo, entretanto, mandou servir-lhes comida e bebida à vontade e pediu-lhes apenas o prazo de uma hora para rezar livremente. Tendo eles consentido, Policarpo começou de pé a sua oração; a graça divina transbordava nele de tal maneira que pelo espaço de duas horas não pôde interrompê-la. Todos os que ouviram se encheram de espanto e muitos se arrependeram de perseguir a um ancião tão cheio do amor de Deus.

Concluindo a oração, na qual se lembrara de todos que havia conhecido, grandes e pequenos, nobres e humildes e da Igreja católica de toda parte do mundo, chegou o momento da partida. Montando um jumento foi conduzido para a cidade, já na manhã do grande Sábado. Vieram a seu encontro Herodes, o chefe de polícia, e Niceto, seu pai, os quais o fizeram sentar-se consigo no carro e tentaram persuadi-lo: “Que mal pode haver em dizer: César é Senhor, oferecer o sacrifício, e dizer as coisas que o seguem, para salvar-se ?” A princípio não respondeu, mas como insistissem, disse-lhes Policarpo: “Não teria o que me aconselhais! “ Perdida assim, a esperança de seduzi-lo, insultaram-no com palavras ameaçadora e jogaram-no do carro com tanta precipitação que feriu na queda a parte anterior da perna. Policarpo nem sequer voltou-se, mas prosseguiu alegremente o caminho para o estádio, depressa como se nada houvesse sofrido. Aí, reinava tal tumulto que ninguém podia fazer-se ouvir.

Quando ele entrou, foi ouvida uma voz do céu, dizendo: “Coragem, Policarpo, seja homem!” Ninguém viu quem falou, mas a voz foi ouvida pelos irmãos presentes. No momento em que Policarpo chegou e a multidão soube que estava preso, aumentou o barulho.

Foi levado à presença do procônsul, que iniciou o interrogatório, perguntando se de fato era Policarpo. Recebida a resposta afirmativa tentou persuadi-lo a renegar a fé: “Respeita a tua velhice” . E seguiram-se os argumentos usuais, em tais circunstâncias. “Jura pela sorte de César, renega as tuas idéias e dize: Morte aos ateus!” Policarpo então, voltando-se para a multidão do estádio, fixando firmemente com um olhar severo aquela ralé criminosa, elevou a mão contra ela e disse, com os olhos voltados para o céu: “Morte aos ateus”.

Insistiu ainda o procônsul: “Faze o juramento e eu te libertarei. Insulta ao Cristo”. Respondeu Policarpo: “Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar meu Rei e Salvador?”

Como de novo insistisse, dizendo: “Jura pela sorte de César”, replicou Policarpo: Se esperas, em vão, que vá jurar pela sorte de César, simulando ignorares quem sou, ouve o que te digo com franqueza: sou cristão! Se, por acaso, quiseres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me o prazo de um dia e presta atenção!” Disse-lhe o procônsul: “Experimenta persuadir o povo”.

Respondeu-lhe Policarpo: “ Julgo que diante de ti devo explicar-me, pois aprendemos a honrar devidamente os princípios e as autoridades estabelecidas por Deus quando não são nocivas à nossa fé. Quanto àquela gente, porém, não a julgo digna de ouvir a minha justificação”.

Nem com isso desistiu o procônsul: “Tenho feras”, disse, “às quais te lançarei, se não te converteres”. “Faze-as vir”, respondeu Policarpo; “impossível para nós uma conversão do melhor ao pior; o bem é poder passar dos males à justiça”. De novo, o procônsul: “Se não te convertes, se desprezas as feras, eu te farei consumir pelo fogo”. Policarpo: “Ameaças com o fogo que arde um momento e logo se apaga. Não conheces o fogo do juízo que há de vir e da pena eterna onde serão queimados os inimigos de Deus. Mas, que esperas ainda? Dá a sentença que te apraz !”

Proferindo estas e outras palavras, transbordaram nele a generosidade e a alegria e no seu rosto resplandeceu a graça. Não somente o interrogatório não o perturbou, mas foi o procônsul quem perdeu a calma. Este mandou então o arauto proclamar por três vezes no estádio: “Policarpo acaba de confessar-se cristão”. Mal tinha anunciado, a multidão de gentios e judeus de Esmirna prorrompeu em gritos furiosos e desenfreados: “Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristão, o blasfemador dos nossos deuses, o que induz tantos outros a não mais honrá-los com sacrifício e orações”. E assim gritando, exigiram do asiarca Filipe que lançasse um leão sobre Policarpo. Ele recusou-se, observando que isso era impossível, pois os combates de feras haviam sido proibidos. Ocorreu imediatamente outra idéia à multidão gritando, a uma só voz: “Que Policarpo seja queimado vivo!” Com efeito, era preciso que se cumprisse a visão do travesseiro. Tinha visto em chamas, quando estava em oração e voltando-se para os fiéis que o rodeavam dissera em tom profético: “Devo ser queimado vivo”.

E isso foi feito mais rapidamente do que falado. O povo saiu à busca de lenha nos armazéns e nos banhos, e, como sempre nestas ocasiões, os judeus eram os mais ardorosos. Armada a fogueira, Policarpo despiu as suas vestes, desatou o cinto, tentou desamarrar as sandálias, o que já não fazia, pois os fiéis sempre se apressavam em ajudá-lo, no desejo de tocar-lhe o corpo, no qual muito antes do martírio já brilhava o esplender da santidade de sua vida. Rapidamente cercaram-no com as coisas trazidas para o fogo. Quando os algozes quiseram amarrá-lo, disse-lhes: “Deixa-me livre. Quem me dá forças para suportar o fogo, dar-me-á igualmente a de ficar nele imóvel sem necessitar deste vosso cuidado”.

Não o fixaram, amarram-lhe apenas as mãos. Policarpo, de mãos ligadas às costas, cordeiro de escolha tomado de um grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado ao Senhor, olhando o céu disse:

Fogo envolvendo Policarpo
“Senhor, Deus onipotente, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e bendito, pelo qual te conhecemos: Deus de toda a família dos justos que vive na tua presença – eu te bendigo por me haveres julgado digno deste dia e desta hora, digno de participar no número dos mártires, do cálice do teu Cristo para a ressurreição da vida eterna do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo! Recebe-me, hoje, com eles, na tua presença como sacrifício agradável e perfeito e o que me havias preparado e revelado realiza-o agora, Deus da verdade. Por isto e por tudo eu te louvo, te bendigo, te glorifico por teu Filho, Jesus Cristo, nosso eterno Sumo Sacerdote no céu. Por ele, com ele e o Espírito Santo, glória seja dada a ti, agora e nos séculos futuros. Amém”.

Pronunciado este amém e completa a oração, os algozes atearam o fogo e levantou-se uma grande chama. Nós – a quem foi dado ver – vimos um prodígio (e para anunciá-lo aos outros fomos poupados), o fogo tomou uma forma de cúpula, como a vela de um barco batido pelo vento e envolveu o corpo do mártir por todos os lados. Ele estava no meio, não como carne queimada, mas como um pão que se assa ou como ouro ou para candentes, na fornalha. Sentimos então um odor suave como o do incenso ou de outra essência preciosa.

Diante de tal acontecimento Santo Ambrósio vai fazer o seguinte comentário: “Fogo não queima Fogo”.

Vendo, afinal que o fogo não conseguia consumir o corpo, os ímpios mandaram o executor transpassá-lo com o punhal. E quando isto foi feito, saiu da ferida tal quantidade de sangue que apagou o fogo. E toda a multidão ficou pasma ao verificar tão grande diferença entre os infiéis e os eleitos. Um destes era certamente Policarpo, o admirável mártir bispo da Igreja católica de Esmirna, que, em nossos dias foi verdadeiramente apóstolo e profeta, pela doutrina, pois toda a palavra saída da sua boca já foi ou será realizada.


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