Adão e Eva

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 320 – Ano 1989 – Pág. 1.

Começamos novo ano pouco depois que a imprensa chamou a atenção do público para a criação do mundo e de Adão e Eva (ver JB, 29/11/88, p. 5, 1.º Cad.).

Os relatos bíblicos da origem do mundo (Gn 1-3) não pretendem ser narrações científicas, mas querem ensinar, em estilo primitivo, que tudo o que existe é criatura de um só Deus (não há astros nem animais nem bosques divinos!). Tal mensagem se compatibiliza bem com a tese da evolução; Deus pode ter criado a matéria inicial dando-lhe as leis de sua evolução até o nível do primata superior. Quando este se achava suficientemente organizado, Deus terá infundido a alma (princípio vital intelectivo, que não é material, mas espiritual) a esse organismo. Assim terá tido origem a criatura humana. Esta hipótese (que realmente não passa de hipótese) já foi aceita pelo S. Padre Pio XII em sua Encíclica Humani Generis (1950).


Quando a Bíblia diz que Deus criou o homem a partir do barro e nele soprou o princípio de vida, está recorrendo a uma imagem literária freqüente entre os antigos. Ela quer dizer o seguinte: como o oleiro está para o barro, assim Deus para o homem; donde se segue que a sabedoria, o carinho, o domínio, a providência… que todo oleiro exerce para com o seu barro, Deus os exerce, de maneira infinitamente perfeita, para com o homem. Tal modo de falar não exclui o evolucionismo indicado nos termos acima; ao contrário, criação e evolução se conciliam muito bem na concepção cristã da origem do mundo e do homem.

À luz destas verdades, vemos que não se pode dizer que Adão e Eva nunca existiram ou são mito e lenda. Existiram de modo tão real quanto é real a existência do gênero humano, cuja origem é abordada em Gn 1-3. A Bíblia quer precisamente narrar o que se deu com o homem nos primórdios da sua história: logo depois de criado por Deus, foi elevado à dignidade de filho de Deus (com os dons da chamada “justiça original”); submetido a uma prova para que se confirmasse na filiação divina, o homem disse Não a Deus num ato de soberba e desobediência, cujo teor é descrito figuradamente pela Bíblia (“fruta proibida”). A elevação inicial e a queda (o pecado original) do homem são proposições essenciais da fé cristã. S. Paulo desenvolve sobre elas a doutrina do segundo Adão, Jesus Cristo, novo Cabeça do gênero humano: como por Adão entrou no mundo o pecado e, pelo pecado, a morte, por Jesus Cristo (novo Adão; cf. Rm 5, 12-14) nos foram devolvidas a graça e a vida. Por conseguinte, não é lícito a um cristão volatizar os primeiros capítulos do Gênesis como se fossem histórias fictícias. Ao contrário, a Bíblia, já no séc. IX a.C., professava a verdade da criação do mundo e do homem (sem excluir a evolução), ultrapassando todas as concepções filosóficas e religiosas da época pré-cristã!

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