Carisma da Profecia

1. Introdução

O carisma da profecia é um dos meios que o Senhor tem para comunicar-se com o seu povo, encorajando, exortando, instruindo, dando novo rumo ao trabalho apostólico, indicando a direção certa e levando à conversão, enfim, manifestando sua santa vontade em tudo (cf. 1 Cor 14, 03).
Deus sempre quer falar, ma
 s nem sempre o seu povo está pronto para escutá-lo. Quando o faz e, em seguida, Lhe obedece, faz a coisa certa, na hora certa, do jeito certo. Quando faz por sua própria conta, por sua vontade, algumas vezes acerta, mas na maioria delas erra, sofre ou fracassa. É necessário ouvir o Senhor sempre (cf. Dt 6, 4).
Que maravilha poder ouvir a Deus e por ele ser orientado. Que povo há, com efeito, que tenha seu Deus tão próximo de si cada vez que o invoca com sinceridade (cf. Dt 4,7)?

2. Conceito
“A profecia é um carisma em virtude do qual o inspirado, em nome de Deus, é movido pelo Espírito, fala à assembléia para exortá-la, estimulá-la ou corrigi-la. É um carisma que contribui muito para edificar a Igreja. Não comunica revelações sensacionais, mas é uma palavra inspirada que manifesta a vontade de Deus em circunstâncias do momento e manifesta os sentimentos ocultos do coração. A palavra profética geralmente suscita fortemente um movimento de conversão, de agradecimento ao Senhor por suas intervenções de amor, um sentimento de paz. Ocasionalmente, o profeta recebe uma luz particular predizendo o futuro 1 (cf. 1Cor 14,3-4.24-25)” .
Por vezes, confirma-se na profecia o que já se está fazendo, encorajando a continuar. “Numa noite, o Senhor disse a Paulo em visão: não temas! Fala e não te cales. Porque eu estou contigo. Ninguém se aproximará de ti para te fazer mal, pois tenho um numeroso povo nesta cidade” (At 18, 9-10). Ela pode também prever uma missão para a Igreja dentro de algum tempo: “Enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado” (At 13,2).
São Paulo aconselha a aspirar aos dons "mas, sobretudo, ao dom de profecia" (cf. 1 Cor 14, 1); e explica a importância deste dom: "Quem profetiza fala aos homens para edificá-los, exortá-los e consolá-los" (1 Cor 14, 3 ). O dom de profecia “edifica a assembléia" (cf. 1 Cor 14, 4); por isso, o apóstolo manifesta seu desejo: "Ora, desejo que todos faleis em línguas, porém, muito mais desejo que profetizeis" (1 Cor 14, 5). Este dom "instrui também os outros (ouvintes)" (cf. 1 Cor 14, 19), e é um sinal "para osfiéis" (cf. 1 Cor 14, 22), quanto para os infiéis, sendo para estes motivo de adoração e proclamação da presença de Deus em meio à comunidade (cf. 14, 24- 25).
É desejo ardente do apóstolo que na comunidade se manifeste este dom do Espírito: “Não desprezeis as profecias” (1 Tess 5, 20). "Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé” (Rm 12, 6), pois, segundo a medida do dom de Cristo, alguns foram constituídos profetas para o aperfeiçoamento dos cristãos (cf. Ef 4,7-12).
A profecia pode trazer uma sugestão sobre algo que deve ser mudado; pode trazer uma confirmação do amor de Deus, do seu poder, um sentido profundo de sua presença. A profecia é um dom que todos podem ter: "Todos, um após outro, podeis profetizar, para todos aprenderem e serem todos exortados" (1 Cor 14, 31).
Em Números 11,29 lê-se: " Prouvera a Deus que todos profetizassem e que o Senhor lhes desse o seu Espírito". Ora, o profeta Joel predissera que o Senhor iria derramar o seu Espírito sobre todo o ser vivo: tal profecia, no Novo Testamento, é lembrada pelo apóstolo Pedro, logo no dia de Pentecostes, como "cumprimento do que foi dito pelo profeta Joel” (cf. At 2, 16-21). Assim, a profecia é uma conseqüência do derramamento do Espírito Santo na Igreja, pois quem tem o Espírito do Senhor e se deixa conduzir por Ele, torna-se um instrumento apto para profetizar na assembléia.

3. O exercício do dom de profecia
O dom de profecia é a faculdade de acolher no íntimo (pensamento) e transmitir em palavras inteligíveis, as revelações de Deus. Está no campo das revelações particulares e, como tal, não pode contradizer o que foi revelado através da Bíblia e da Tradição e que é explicado pelo Magistério da Igreja (revelação pública).
A manifestação da profecia deve ser com "dignidade e ordem" (cf. 1 Cor 14, 40), e com um critério de julgamento sobre a mesma (cf. 14, 29), pois, "Deus não é Deus de confusão, mas de paz" (1 Cor 14, 33). Assim sendo, o exercício da profecia acontece quando o profeta fala sob a influência sobrenatural do Espírito , abrindo o seu ser para isso, transformando-se em “porta-voz” de Deus, para a verbalização de Suas palavras.
A profecia não se refere necessariamente ao futuro, muito embora isso tenha sido o caso em algumas ocasiões, como evidencia a Bíblia. Pela profecia, Deus utiliza-se de alguém para dizer aos homens o que Ele pensa sobre a situação presente, ou qual é a Sua intenção para o futuro. Numa reunião de oração, a profecia tem o efeito de aprofundar o senso da presença de Deus. É um meio eficaz de o povo ser conduzido por Deus. Neste sentido, o profeta transmite o pensamento de Deus para que se possa agir segundo esse pensamento. E essa transmissão vem de Deus e não da mente daquele que fala.
O profeta fala sob inspiração divina, sob ação divina, sendo instrumento ativo desta inspiração e comunicação; o que importa é a mensagem, e não tanto o transmissor da mensagem. É preciso ter cuidado para não se deixar levar pela fraqueza humana, não aceitando uma profecia divina porque esta veio por este ou aquele membro da comunidade.
O Espírito Santo é livre para que haja profecia onde, como e quando Ele quiser; nas reuniões de oração, normalmente, há uma certa seqüência em relação à profecia, como segue: oração, louvor (cânticos ou preces), oração e cântico em línguas seguidos de breve tempo de silêncio. Assim, se cria o clima favorável para a manifestação do carisma da profecia, que deve ser desejado por todos (cf. 1 Cor 14, 1). Após acolher a profecia, a comunidade louva e exulta de alegria pela palavra que o Senhor deu. É importante que haja confirmação da profecia.

3.1. A acolhida da profecia
Ninguém profetiza sem o consentimento da vontade, mas acolhe as palavras de Deus em sua mente e, se não as pronunciar por medo, insegurança ou respeito humano, deixa de profetizar. Deus não violenta, não força a mente humana contra a sua vontade e consentimento; serve-se sim, de suas faculdades, de maneira que a pessoa é usada por Ele.
É o Senhor quem escolhe, chama e capacita o profeta (cf. Ef 4, 11). É Ele que suscita o desejo de profetizar, vai derrubando as barreiras que impedem a entrega plena do ser da pessoa ao seu Espírito, embora respeite o seu livre arbítrio, sua liberdade. A profecia é geralmente precedida pela unção, que é um 'senso da presença do Senhor', um movimento no íntimo do espírito, é um impulso para anunciar a mensagem de Deus; com freqüência, a unção é a chave que permite saber que o Senhor quer falar.
Assim sendo, são combinadas a ação do Espírito e a adesão da pessoa. O Espírito unge o profeta e inspira-lhe as palavras a serem ditas. A pessoa deve entregar-se a Deus, acolher as palavras no íntimo e pronunciá-las destemidamente. O profeta não precisa mudar a voz ou imprimir uma tonalidade discursiva, mas apenas pronunciar o que lhe é revelado na sua própria maneira de falar. Nesse sentido, Deus se utiliza da cultura e do vocabulário da pessoa.
O essencial para acolher a profecia e proclamá-la é crer que Deus quer falar naquele momento e dispor-se a ser seu instrumento. A pessoa recebe na mente uma palavra ou frase e, à medida que as pronuncia, outras se seguirão. Também pode acontecer de ser dada primeiro em pensamento ou por meio de uma imagem. Qualquer que seja a forma de receber a profecia, a pessoa deve dar um passo na fé para pronunciá-la, sem se deixar impregnar por dúvidas e inseguranças. Por vezes, a pessoa se acostuma a ficar esperando pelos que mais costumeiramente profetizam. Os que agem assim, dificilmente, serão usados com o dom da profecia. Para ouvir o Senhor, é necessário um ato de entrega ao Espírito e não apenas de passividade.
O profeta deve manter uma expectativa de escuta. A escuta é a capacidade dada pelo Espírito Santo para ouvir a voz de Deus no coração e discernir, dentre todas as vozes que chegam, qual é a de Deus (cf. Jo 12,27-29).
A oração do discípulo de Jesus é mais do que falar no vazio, ler no vácuo, sofrer na solidão, contemplar um túnel sem fim. A oração do discípulo de Jesus Cristo ressuscitado é muito mais do que tatear na escuridão. Ela não é tampouco um salto no abismo. O discípulo de Jesus foi elevado à posição de amigo do Mestre (cf. Jo 15,14). Sendo amigo de uma das Pessoas da Santíssima Trindade, goza, automaticamente, da amizade das outras. Por isso sua oração é, antes de tudo, aproximar-se de Deus (cf. Hb 11, 6), é um inclinar de ouvido na direção dos lábios da Trindade Santíssima (cf. Is 50,4b-5) para saborear o seu canto de amor.

3.2. O ciclo carismático
Nas reuniões de oração, cria-se assim o que é denominado "ciclo carismático", composto de louvor, oração e profecia. A assembléia se dirige a Deus pela oração, que é o diálogo com o Senhor; Ele responde pela profecia, usando as mentes e vontades daqueles que se rendem a Ele para edificar a comunidade.
No ciclo carismático, encontram-se assim estes elementos: oração, louvor (cânticos ou preces), orações em línguas, seguido de breve tempo de silêncio, unção (que geralmente precede a profecia), profecia, após a qual a comunidade louva e exulta de alegria pela palavra que o Senhor lhe dirigiu. Na medida em que a comunidade se habitua com o ciclo carismático, torna-se mais aberta ao Senhor e ao cumprimento de Sua vontade.
Ocorre, por vezes, que vários membros da comunidade tenham a mesma profecia num só momento; quando a primeira profecia é anunciada, os outros, tendo-a também recebido, podem confirmá-la, dizendo em bom tom: "eu confirmo". Isto dá certeza da profecia quanto à sua autenticidade. Deve-se falar o que se recebe, tão logo se recebe. Após o anúncio de uma ou mais profecias, é oportuno que o dirigente da reunião conduza a assembléia a ouvar o Senhor que ali está se comunicando com ela.

4. Tipos de profecia
Além da profecia verdadeira, pode acontecer de ser proclamada numa reunião de oração ou fora dela:
a) Não profecia - quando as palavras vêm da mente humana; são sentimentos, às vezes bastante piedosos, mas que não vêm de Deus e sim da pessoa que, movida por seus anseios ou mesmo por problemas emocionais, tenta comunicar os próprios sentimentos como se fossem mensagens do Espírito;
b) Falsa profecia - é uma mensagem influenciada pelo Demônio. Normalmente, ela contradiz a Escritura ou a Tradição e o ensinamento da Igreja. A falsa profecia é detectada pelos seus frutos: ela causa um mal-estar espiritual junto à comunidade; vê-se logo que não procede do Espírito Santo pelos efeitos negativos que produz.
Pode acontecer também que inspirações autênticas se mesclem à subjetividade do indivíduo que, espontaneamente, vai introduzindo outros elementos e misturando-os com o que Deus está revelando. Seria o caso de:
a) Profecias longas – a pessoa recebe a inspiração e, depois que fala o que sentiu de Deus, permanece comentando ou acrescentando coisas que, nas mais das vezes, ela mesma tem vontade de dizer à comunidade ou a algumas pessoas que ali estão presentes. A profecia se torna longa e um pouco confusa, dificultando o entendimento dos ouvintes quanto ao que realmente é mensagem de Deus. Apesar disso, o fato de uma profecia ser um pouco mais alongada, não quer dizer que estejam sendo feitos acréscimos pelo profeta;
b) Profecias repetitivas – a pessoa pronuncia as palavras inspiradas e, na ânsia de continuar ensinando, fica repetindo as mesmas palavras ou com pequenas variações;
c) Profecias influenciadas por devoções pessoais – quando uma pessoa tem ligação muito estreita com algum tipo de devoção (Coração de Jesus, Nossa Senhora, algum santo, etc.), poderá se sentir impulsionada a mesclar a profeciacom esses sentimentos pessoais; às ezes, a mensagem é transmitida estritamente com elementos de tais devoções, o que se constitui numa não-profecia.
É necessário recorrer ao dom do discernimento, pelo qual Deus dá uma convicção interior da autenticidade ou não da profecia. O discernimento, portanto, torna-se também um exercício espiritual. No entanto, ao ser proclamada uma profecia, seria oportuno:

a) Observar se ela não contradiz a Bíblia ou a doutrina da Igreja;
b) Perceber as impressões que ela causa da assembléia (paz, alegria, contrição, medo, angústia, ansiedade, etc.);
c) Esperar que ela seja confirmada por outras pessoas.

É bom que se diga que o Demônio não tem poder e autoridade para interferir numa oração humilde e aberta ao Espírito. Quanto mais louvor, menos espaço para Satanás. Ele necessita de um tipo de “brecha” para influenciar as pessoas, que pode ser causada por presunção, desespero, altivez ou algum pecado grave que esteja, de alguma forma, influenciando fortemente o momento de oração.

Quanto aos destinatários uma profecia pode ser:
a) Pessoal – dirigida diretamente a uma pessoa, na oração pessoal ou através de alguém que ora por ela; mais raramente, mas também pode acontecer numa oração comunitária;
b) Comunitária – dirigida a todas as pessoas reunidas em oração.
Pode-se pedir uma profecia para alguém particularmente ou para uma necessidade da comunidade como um todo. Na profecia podem ser revelados planos a se realizar e que já estão sendo amadurecidos dentro de cada um, individualmente, ou na comunidade.

Quanto à forma uma profecia pode ser:
a) Direta – pronunciada em língua compreensível, na primeira pessoa do singular, como se fosse o próprio Deus falando;
b) Indireta - por meio de visualização, recordação de trechos bíblicos ou fatos ocorridos, entre outros; nesses casos, o profeta normalmente comunica o que Deus está falando, como se estive expondo. Também é possível que alguém profetize enquanto profere uma pregação ou ensino.
Frequentemente, pódem ocorrer profecias com substrato bíblico, compostas de frases bíblicas, justamente porque naquele momento, Deus quer relembrar à comunidade orante, esta ou aquela mensagem ou verdade da fé contida na Escritura. Neste contexto, a profecia, é "uma ação de Deus mediante a qual alguém proclama uma mensagem de Deus, a qual focaliza uma verdade já conhecida, mas que precisa naquele momento, ser lembrada". As passagens bíblicas vêm ao pensamento naturalmente.
No entanto, é preciso que se diga que a mera recordação de versículos bíblicos sem uma conotação atual não é profecia. Quando alguém apenas emite supostas mensagens tais como: “Meus filhos, eu sou o caminho, a verdade e a vida”, não se trata de uma profecia no sentido estrito; na maioria dos casos, é um pensamento da própria pessoa, porque recordou aquela palavra naquele momento, motivada ou não pelo clima da oração. Pelo dom do discernimento é possível saber se as palavras bíblicas têm uma conotação atual.
Por fim, é importante lembrar que “um carisma – sobretudo de ordem profética – não é infalível e o seu início pode ser marcado pelo fracasso, pelo erro, pela falta de confirmação, sem que ele tenha de ser imediatamente questionado. Tudo isso é uma fase de ensaios às cegas, legítima e necessária para assentar esse carisma. Mas ela não deve, obviamente, prolongar-se, excessivamente...”.

5. Profecia e obediênciaAs profecias são dadas como orientações para serem obedecidas. Quando não se presta atenção e não se vive o que o Senhor fala, Ele pode calar-se. É importante levar bem a sério as profecias: são palavras de Deus, palavras de vida, que levam a comunidade e as pessoas a terem vida em abundância (cf. Jo 10,10).
“O grupo deve levar a sério a palavra de profecia, porque, por ela, o Senhor nos fala. Ela pode mudar o rumo das coisas, o rumo da própria Igreja, e é assim que a Igreja, que somos nós, se mantém em ação”.

6. Conclusão
O objetivo da profecia é edificar, exortar, consolar (cf. 1 Cor 14,3). Sua autenticidade deve ser julgada pelos demais profetas (cf. 1 Cor 14, 29-33). Seu conteúdo deve estar de acordo com a Bíblia e o ensino da Igreja, levar à glorificação de Deus, ressaltar o crescimento de Cristo no amor fraterno, na edificação da Igreja e na busca da santidade.
O profeta é o porta-voz de Deus – Deus é o centro – mostrando o Cristo vivo e ressuscitado agindo, por seu Espírito. São Paulo convida à confiança quando diz: "Todos podeis profetizar" (1 Cor 14, 31). A Igreja precisa de profetas que encorajem, animem, instruam e exortem (cf. Col 3, 16).

Fonte: Revista Renovação - Boletim 45

One Response so far.

  1. André says:

    Muito interessante o texto, vale a pena ler!

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