Querigma e Catequese - Parte 1

O Querigma (Parte I) – Querigma e Catequese


No princípio da vida da Igreja, batizavam-se somente os convertidos. Hoje em dia a tarefa é o inverso: converter os batizados. A Igreja precisa ser evangelizada em seu interior para que ela se converta em Boa Nova para o mundo. Por isso, hoje, evangelizar os batizados é imperativo urgente.

A evangelização se dá em dois momentos sucessivos que são complementares e interdependentes:

• O Querigma: Primeiro anúncio de Jesus
• A Catequese: Ensino progressivo da fé

São 2 passos consecutivos, onde o querigma sempre deve anteceder à catequese. Se o querigma é a forte badalada do sino, a catequese é o eco da badalada. A catequese prolonga o anúncio querigmático. Não é fria doutrina ou meros ensinamentos teóricos, mas a extensão e a plenitude da nova vida trazida por Jesus. A vida nos é dada pela fé com que respondemos ao anúncio querigmático, mas a vida em abundância chega à sua plenitude, através da catequese vivida na fé.

O grande erro pedagógico foi sempre o de primeiro catequizar para depois “cristianizar”, ou seja, insistem-se, primeiro, em catequizar os fiéis. No entanto, esqueceu-se o princípio fundamental exigido por Jesus a Nicodemos: É necessário nascer de novo.

Para que a vida de alguém cresça, é necessário ter antes nascido. Não se pode crescer na fé se, antes, não se nasceu para ela. O querigma conduz a este fim: através da apresentação de Jesus, ter uma experiência de vida nova graças à fé e à conversão e experimentar Jesus vivo como Salvador pessoal, como Senhor de toda a vida e como Messias que dá o Espírito Santo, para transformar nosso mundo pelo amor.

Entretanto, para evangelizar estamos colocando o rico alimento da doutrina e da moral cristã junto a cadáveres que não têm a vida de Jesus. Estamos alimentando os mortos. Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, primeiro devolveu-lhe a vida, entregando-a depois a seus pais (a comunidade) para que lhes desse o alimento. Não podemos suprir com catequese aquilo que é uma experiência de vida nova. A catequese, para produzir fruto abundante que permaneça, deve estar em seu lugar: sempre depois do anúncio querigmático.

O querigma é apresentar Jesus, de modo que o indivíduo tenha uma experiência pessoal do Amor de Deus, suscitando nele uma resposta de fé e entusiasmo por Deus e sua Igreja. Somente, então, o indivíduo sentirá desejo e necessidade de se aprofundar na vida nova que experimentou. Então, ele mesmo buscará a catequese para consolidar sua fé em Jesus e na sua Igreja. Quando se inverte esta ordem, ou seja, evangelizando-se a partir da catequese, damos alimento sólido a quem não deseja, pois ainda está cego ou espiritualmente morto. É como jogar pérolas aos porcos. Como resultado, não se interessam pelo precioso alimento recebido, pois “morto” não se alimenta. Por isso, antes de dar o alimento sólido da catequese, é necessário, primeiro, que o indivíduo renasça espiritualmente e o deseje com fervor, ou seja, tenha experimentado o amor de Deus e a conversão, mediante o anúncio do querigma. Em resumo, o querigma produz o renascimento da vida espiritual, enquanto a catequese, depois, alimenta esta vida espiritual dando-lhe o crescimento.

Quadro comparativo entre Querigma e Catequese:

• No querigma o objetivo é nascer de novo, ter vida. Na catequese é crescer em Cristo, ter vida em abundância.

• No querigma o conteúdo é o anúncio de Jesus, morto, Salvador, Ressuscitado, Senhor, Glorificado e Messias. Na catequese o conteúdo é a explicação da doutrina da fé, moral, dogmas, Bíblia, etc.

• No querigma o método utilizado é a proclamação de Jesus como a Boa Nova e o testemunho pessoal, visando estimular a vontade do evangelizando (= aquele que está sendo evangelizado). Na catequese o método utilizado é o ensino ordenado e progressivo da Fé de toda Igreja, visando iluminar o entendimento.

• No querigma o agente é o evangelizador, que é uma testemunha cheio do Espírito Santo. Na catequese, o agente é o catequista, que é um mestre cheio do Espírito Santo.

• No querigma a meta é o encontro pessoal com Jesus pela fé e conversão e a proclamação de Jesus como Senhor e Salvador. Na catequese a meta é o encontro com o Corpo de Cristo: a comunidade Igreja e, assim, desenvolver a santidade do povo de Deus.

• No querigma o evagelizando dá uma resposta pessoal: Meu Senhor e meu Salvador. Na catequese, a resposta é comunitária: Nosso Senhor, Nosso Salvador.

O Querigma (Parte II) – Os 3 Personagens da Evangelização

Na evangelização há 3 personagens: O Evangelizador, o Evangelizando e o Espírito Santo. Cada um com seu papel bem claro e definido, que não deve ser suplantado pelo outro.

1) O Evangelizando: Escuta e Responde a Deus

• Seu papel é escutar a Palavra anunciada pelo evangelizador
• Ele, e somente ele, dá uma resposta à Palavra proclamada, com uma atitude tanto interior, quanto exterior
• Ele se confessa pecador e pede perdão de seus pecados
• Proclama Jesus como Senhor de sua vida
• Pede a Jesus Messias o Espírito Santo e o recebe

Não lhe compete:
• Discutir com o evangelizador. Porém, é legítimo que faça perguntas e tire dúvidas
• Dar, mas apenas receber
• Justificar-se: “eu não faço nada de mal”, nem condenar-se: “eu não tenho perdão”

2) O Espírito Santo: Convence e Converte

• A proclamação e o testemunho do evangelizador são instrumentos necessários, mas apenas instrumentos, já que o agente principal da evangelização é o Espírito Santo. Ele atua tanto no evangelizador quanto no evangelizando.

Atuação do Espírito Santo no evangelizador:
• Dá-lhe zelo pelo Evangelho
• Unge-o e usa-o como canal de sua obra
• Enche-o de poder e amor

Atuação do Espírito Santo no evangelizando:
• Usando as palavras e atitudes do evangelizador como veículo de sua obra salvífica, o Espírito Santo é quem realiza com eficácia a obra da evangelização, infundindo a fé, para convencê-lo de que é pecador necessitado de salvação e, em consequencia, que proclame Jesus como Salvador e Senhor.

3) O Evangelizador: Proclama e Testemunha

• Proclama Jesus, uma Pessoa Viva e seus atos de Salvação
• Anuncia jubilosamente a Boa Nova: Já fomos salvos
• Apresenta Jesus Salvador como a única solução para cada homem, para a sociedade e para o mundo inteiro
• É testemunha e dá testemunho: Com sua própria vida e em todo tempo e lugar, é testemunha de que graças a Jesus é possível viver de uma maneira nova neste mundo, e que sua morte e ressurreição são eficazes nos dias atuais. E testifica com palavras o que Deus realizou nele

Não lhe compete:
• Ensinar teorias ou apresentar doutrinas.
• Defender Deus. O advogado é o Espírito Santo.
• Tentar convencer o evangelizando com argumentos, citações bíblicas, sugestão ou qualquer tipo de manipulação dos sentimentos.
• Converter e transformar as pessoas, pois quem converte e transforma é o Espírito Santo.
• Ver o fruto terminado da obra de evangelização

Há 4 condições necessárias para se poder ser um evangelizador e, posteriormente, um formador de evangelizadores:

• Ter experiência de salvação
• Ter zelo pelo evangelho
• Análise da realidade
• Viver o Evangelho

Analisemos estas condições:

1) Ter experiência de salvação

A primeira experiência de todo evangelizador é ter tido uma experiência pessoal de salvação.

Não basta saber muita doutrina, ser diplomado em teologia ou ter título ou função na Igreja. É necessário “ter nascido de novo”, como exigia Jesus do sábio Nicodemos (Jo 3,3).

O evangelizador não é um mestre, mas sim uma testemunha: proclama Jesus Salvador e dá testemunho do que viu e ouviu. Não só sabe que Deus é Amor: Ele teve a experiência pessoal de ser amado incondicionalmente. Já teve seu encontro pessoal com Jesus e o proclamou seu Salvador pessoal e Senhor de toda sua vida. O Espírito Santo o marcou com um selo indelével. Se proclama que Jesus salva, é porque antes ele já viveu essa salvação na própria carne.

2) Ter zelo pelo evangelho

O zelo pelo Evangelho é um desejo intenso de que Cristo Jesus seja conhecido, amado e servido por todos os homens e, ao mesmo tempo, é um compromisso com o homem para que seja mais digno, mais livre, mais homem.

O zelo pelo Evangelho é um fogo implacável no coração, que não se deixa extinguir e que procura incendiar a todos.

É uma espada afiada que não se detém diante de nenhuma dificuldade, até deixar semeada a semente da Palavra de Deus no mundo. É boca de profeta que não cala por respeitos humanos, estruturas asfixiantes ou medo disfarçado de prudência.

“Calçados com o zelo pelo Evangelho” (Ef 6,15), seu único acompanhante é o bastão, como o de Moisés, para mostrar que, com o poder de Deus, é possível atravessar o Mar Vermelho das dificuldades e dos problemas.

Esse zelo deve converter-se em paixão, que coloca o trabalho evangelizador acima de qualquer outra coisa na vida. E mais: É necessária a obsessão de que o que importa na vida é anunciar a pessoa, a vida e os ensinamentos de Jesus, assim como instaurar seu Reino de justiça, gozo e paz neste mundo.

Paulo estava cheio desse zelo quando exclamava: “ai de mim senão evangelizar”, por isso, era capaz de superar todas as adversidades que nos conta em 2Cor 11,23-29.

3) Análise da realidade

A mensagem não é uma camisa-de-força que se impõe, e sim uma opção que propõe a homens livres, inseridos numa cultura, para que com sua vontade tomem a decisão de viver o Evangelho, implantando os valores do Reino em sua realidade histórica.

As estruturas sócio-políticas e culturais são o terreno onde se semeia a palavra. Nesse marco concreto, o Evangelho se encarna para transformar as situações de pecado. Aculturar o Evangelho é o grande desafio dos evangelizadores, sob pena de permanecer no superficial ou no sentimental.

4) Viver o Evangelho

O estilo de vida do evangelizador determina a mensagem que transmite, seja porque adquire alta reputação, seja porque se desprestigia. O evangelizador não é um frio transmissor de uma propaganda, mas ele encarna a mensagem, convertendo-se ele próprio, com seu estilo de vida, em parte da mensagem.

Isso exige que ele creia profundamente naquilo que prega e que viva de acordo com o que crê. O evangelizador não é um simples propagandista. Ele vive de acordo com a mensagem que transmite. Se não existe congruência entre a vida e a mensagem, ela desvirtua-se e é mal interpretada, pois não é possível esperar que os outros creiam naquilo que o evangelizador não professa.

Paulo, porque vive o que prega, atreve-se a dizer: Sejam meus imitadores como eu mesmo o sou de Cristo.

Continua...

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