Querigma e Catequese - Parte 2

O Querigma – Pedagogia para fazer o Anúncio Querigmático


1) O Querigma deve ser Atual: Hoje

Não se trata de falar de acontecimentos perdidos no passado, nem sequer há 2 mil anos atrás, mas sim de forma atual, tornando presente a eficácia da salvação. Por exemplo, mais do que falar do Deus eterno, apresentar Deus que hoje ama, que cura e liberta hoje. Que o homem pode obter a Salvação, se hoje crê e se converte; que o dom do Espírito Santo é para os tempos atuais e que é urgente criar o Evangelho na comunidade cristã.

2) O Anúncio Querigmático deve ser direto: a ti

Não se trata de falar impessoal ou teoricamente, mas sim que “Deus te ama pessoalmente”. Não se trata de apresentar o tema sobre a essência do pecado, mas de interpelar o evangelizando, dizendo: “Necessitas de salvação porque não podes salvar a ti mesmo!”. Mais do que uma aula de Cristologia, deve-se oferecer um Cristo Jesus vivo, com quem é possível ter um encontro pessoal e receber o dom do Espírito Santo. Não se trata de falar em abstrato, mas sim, concretamente.

3) O Evangelizador deve concatenar os temas do anúncio querigmático

Deus te ama, mas teu pecado te impede de senti-lo. Entretanto, Ele já te perdoou e libertou pela morte e ressurreição de Cristo Jesus. A única coisa que tu deves fazer é crer e converter-te a fim de receber seu amor, que é o Espírito Santo e possas viver na família de Deus, a comunidade cristã.

Esta concatenação reflete o diálogo espontâneo, aonde o evangelizador vai respondendo as perguntas que o evangelizando vai se fazendo inconscientemente. Veja:

• Evangelizador: Deus te ama hoje
• Evangelizando: Mas porque não o sinto?
• Evangelizador: Porque és pecador e necessitado de salvação.
• Evangelizando: E qual é a solução?
• Evangelizador: Jesus já te salvou.
• Evangelizando: Que devo fazer então?
• Evangelizador: Crê e converte-te já, proclamando Jesus como Salvador e Senhor.
• Evangelizando: Como acontece isso?
• Evangelizador: Pede e recebe o dom do Espírito Santo.
• Evangelizando: E depois? O que fazer?
• Evangelizador: Persevera com Jesus na comunidade Igreja.

4) O Evangelizador deve dar seu testemunho de vida

O testemunho pessoal é o centro de uma evangelização eficaz. É o testemunho de como Jesus transformou a vida e como já se vive a vida nova. Portanto, é vivencial e pessoal. Não se apresentam idéias ou doutrinas, mas fatos concretos nos quais foi experimentada a salvação de Jesus.

Como pode alguém afirmar com segurança e convicção que Jesus salva, se ele mesmo não o experimentou de alguma forma? Alguém é testemunha de Cristo, quando aspectos concretos da vida de pecado já morreram na cruz de Jesus e já se participa das primícias da vida nova de Cristo ressuscitado.

Em um testemunho manifesta-se não o que nós fizemos pelo Senhor, mas sim o que Ele realizou em nossas vidas. Um exemplo é o daquele homem a quem Jesus ensinou a dar testemunho: “Vai para a tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor na sua misericórdia” (Mt 5,19)

O testemunho deve ter 3 características: ABC (Alegre, Breve e Centrado em Cristo)


ALEGRE:
Um testemunho deve estar envolto numa atmosfera de alegria, acompanhado de um sorriso, do entusiasmo das palavras e da convicção dos olhos. A alegria é o primeiro sinal de quem encontrou o tesouro escondido. Não se trata de uma alegria porque não existem problemas, mas sim porque a alegria do Senhor é nossa fortaleza.

BREVE:
Um bom testemunho deve ser centrado no fundamental da obra salvífica de Deus, sem entrar em detalhes acidentais ou complicados. Os relatos longos são cansativos porque se perde o enfoque fundamental. Não se devem exagerar as coisas, nem o nosso pecado, nem a obra salvífica de Deus.


CENTRADO EM CRISTO:
Um testemunho não está centrado em quem o dá, para que os outros o admirem, mas sim centrado em Cristo mesmo, e em sua obra salvífica.

Há quem pense que os testemunhos que mais impressionam são aqueles em que Deus realizou coisas maravilhosas e mudanças radicais, acompanhados por milagres e sinais extraordinários. Não é sempre assim. Cada testemunho toca às pessoas que estão seguindo um caminho semelhante. Há muitas pessoas que se parecem com cada um de nós e não necessitam de grandes coisas. Nosso testemunho para eles será uma grande libertação.

O testemunho deve terminar sempre com uma explícita exortação: “Se fez em mim, pode fazer em ti. O Senhor quer fazer também em tua vida”.


5) O Querigma deve ser anunciado com o poder do Espírito Santo

É o Espírito Santo quem impulsiona cada um para anunciar o Evangelho e quem faz aceitar e compreender a Palavra da Salvação.


"Não haverá nunca uma evangelização possível sem a ação do Espírito Santo. As técnicas de evangelização são boas, mas nem as mais aperfeiçoadas poderiam substituir a ação direta do Espírito” (E.N. 75).

O eloquente discurso de Paulo, no Aerópago Ateniense, demonstra que a eficácia do Evangelho não reside em palavras cheias de sabedoria e ciência, mas na ação do Espírito Santo. O poder não está necessariamente nos gritos ou nas qualidades de sugestão ou de oratória, mas na ação eficaz, às vezes discreta, outras vezes portentosa, com que o evangelizando se abre e se rende à pregação e à obra salvífica de Deus.

6) A santidade do evangelizador

O verdadeiro evangelizador é quem traz em si a imagem de Cristo Jesus. Só quem tem o estilo de vida de Jesus é capaz de ser canal de sua vida. Um evangelizador santo atua com pureza de intenção porque só tem um objetivo em sua vida e não busca nenhuma compensação humana de benefício pessoal: que Jesus Cristo seja mais conhecido, seguido e amado por todos os homens.

7) O evangelizador deve ser movido pelo amor

O Evangelizador deve ter amor ao Evangelho, a Jesus e ao evangelizando. Sem ele o ministério do evangelizador seria como bronze que ressoa. O evangelizando deve sentir, de algum modo, um lampejo do amor de Deus, através de cada gesto e atitude do evangelizador. “A obra do evangelizador supõe um amor fraternal àqueles que evangeliza” (E.N. 79)

8) Usar de exemplos e parábolas

A forma mais pedagógica de anunciar o Evangelho é através de exemplos claros que consigam explicar de uma maneira simples o que se quer transmitir. Histórias e vivências gravam muito mais na mente dos ouvintes do que qualquer tipo de instrução teórica. Para cada tema ou verdade se deve encontrar exemplos atuais e modernos que facilitem sua compreensão.

9) Usar as Escrituras

É imprescindível levar e usar um exemplar da Bíblia quando se evangeliza. É muito importante saber de cor as passagens fundamentais do anúncio querigmático, para utilizá-los com presteza e boa pronúncia. Entretanto, mais importante do que os recitar de cor, é lê-los diretamente da Bíblia e, quando possível, que o evangelizando mesmo os leia em voz alta.

Também é muito importante que cada evangelizando tenha sua Bíblia, para que ele se alimente do Pão da Palavra de Deus. No caso de não poder adquiri-la, deve-se procurar uma forma de presenteá-lo, ao menos, com um Novo Testamento.

10) O Evangelizando deve tomar uma decisão

Um erro frequente da evangelização é tratar de convencer mediante argumentos apologéticos. Dizia o Bispo Fulton Sheen: “Cada vez que ganhei uma discussão, perdi uma alma”. O ponto ao qual se deve dirigir toda a proclamação não é tanto a compreensão, pois que não se apresenta uma doutrina. Jesus quer entrar pelo coração para chegar ao cérebro. Na catequese o entendimento terá um papel tão primordial quanto a vontade no anúncio querigmático.

O bom evangelizador deve procurar desafiar o evangelizando para que tome a grande decisão de sua vida: adquirir a pérola preciosa vendendo todas as demais ou permanecer surdo a sua voz. Dizer sim ou não, mas não ficar indiferente frente ao oferecimento da salvação. Portanto, não se trata de convencer, de seduzir, menos ainda enganar ou chantagear! Simplesmente, é uma questão de que, diante da pessoa de Cristo Jesus, se diga um sim total ou um não completo. Quando o evangelizando fica morno ou indiferente, devemos verificar se estamos apresentando a pessoa viva de Jesus ou estamos propondo teorias.

11) Acompanhar o evangelizando

O evangelizador participa da paternidade de Deus, pois gera a vida de Cristo nos outros. Mas esta paternidade deve ser responsável, zelando por aqueles que foram gerados na fé. Nosso compromisso não termina com fazer o evangelizando nascer de novo, mas em oferecer-lhe os meios de crescimento e de integração em uma comunidade de serviço dentro da Igreja. Portanto, é importante que se acompanhe o evangelizado, como fazia Paulo: “Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades onde temos pregado a Palavra do Senhor, para ver como estão passando.” (At 15,36).

12) Integração com a Igreja

A Igreja é evangelizadora e, ao mesmo tempo, é um Evangelho, porquanto, é ela mesma uma manifestação da Nova Vida trazida por Jesus. O objetivo último da evangelização não é a transformação de indivíduos isolados sem nenhum nexo entre si, mas a integração de comunidades cristãs autênticas, onde é vivida a salvação trazida por Cristo Jesus. E mais, a vida em plenitude só se experimenta em plenitude em união efetiva com os demais irmãos na fé: a Igreja. Toda a evangelização tende à integração das comunidades cristãs, onde se manifesta de maneira clara e efetiva o amor de Deus derramado por nós, em nosso coração, pelo Espírito Santo.

A comunidade não é opcional. É absolutamente necessária para perseverar na vida nova. Ela nos garante o crescimento e o desenvolvimento do neo-evangelizado. Sem ela, a semente da Palavra da Salvação será afogada pelas preocupações da vida e os valores anti-evangélicos que regem o mundo. À comunidade não se assiste, mas pertence-se. Faz-se parte ativa dela. Ali, dá-se e se recebe amor como o de Jesus: que nos dispõe a entregar a vida pela pessoa amada. Isto é o que essencialmente forma a comunidade: o amor cristão.



Fonte:

José H. Prado Flores
Livro: Como Evangelizar os Batizados (Ed. Loyola)

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