A crise de valores

Dom Dadeus Grings
Arcebispo da arquidiocese
de Porto Alegre
Nossa nova época que nos levou a um terreno de areias movediças. Esperamos que não sejam nos novos Lagos Missurinos, que engoliram as tropas russas na Primeira Guerra Mundial. Falamos da crise de valores, que assolou nosso mundo. Parece que não há mais nada de sólido, ou seja, tem-se a impressão de que o chão debaixo dos pés está cedendo, não, menos que na época em que Copérnico tirou a terra do centro do universo, privando-a da imobilidade e estabilidade, que até então, na cultura vigente, parecia ter, colocando os homens em condição de vertigem.


A crise dos valores parece, hoje, na fragilidade dos vínculos. A palavra vale muito pouco. Parece que foi a memória que ficou mais afetada. Quer-se tudo por escrito. Mas nem isto basta. Exigem-se mais outras complicadas formalidades, para lhe dar alguma segurança, pelo menos social, como firma reconhecida e testemunhas. Mas a própria sociedade começa a vacilar.
Dispõe-se a anular, com facilidade, os compromissos que pretendia ou deveria salvaguardar. Assim introduziu o divórcio civil, que nada mais é que retirar a garantia da sociedade para o casamento.
 Os tribunais de justiça estão cada vez mais abarrotados de processos de pessoas que se sentem lesadas em seus direitos ou, pior ainda, de gente que procura lesar outros com o aval da sociedade. Os vínculos perderam consistência. Muda-se de idéia e, conseqüentemente, de compromisso. Com isso, evidentemente, ressente-se não só a identidade de cada pessoa, como, principalmente, sua caminhada para algum objetivo mais alto. O hoje lhes basta. Não há mais perspectiva de realização definitiva. Tudo é provisório. Muda-se continuamente de rota.

Um segundo campo da crise dos valores encontra-se na sufocação das tradições locais. Faz-se tabula rasa do passado. Basta dizer que algo já era para declará-lo superado e afastá-lo da convivência. As tradições começam a vacilar e a identidade das comunidades perde consistência. Globalização parece significar eliminação das particularidades. O ser humano não vê mais o universo a partir de sua terra, mas a partir do mundo inteiro, o que, na prática significa que não vê mais. Sua visão perdeu realismo, porque não tem mais ponto de referência. Tornou-se apenas virtual. É como infinito material, que apenas existe em potência. Jamais em ato. Em outras palavras, não é real. O real é o aqui e agora; é a vida pessoal, com seus sentimentos e perspectivas...

Como conseqüência destes dois abalos – da fragilização dos vínculos e da sufocação das tradições e, por isso, da vida local – sentimos a crise de atualidade manifestar-se na desorientação, tanto dos jovens como das crianças. Não se sabe mais o que transmitir-lhes. O jeito é deixá-los à voragem dos tempos. Recolhê-los na sua subjetividade. Devem procurar a sós o caminho, em meio a uma infinidade de solicitações de todos os lados. Encontram-se como que num mato sem cachorro. Ninguém mais quer ser o “cachorro” do outro. E com isso todos, isoladamente, se perdem num mantegal de informações, sem alma e sem rumo.

Um quarto sintoma da crise de valores pode ser visto no que se costumou chamar de “agressão dos meios de comunicação”. Sabemos que estes meios são profundamente democráticos, no sentido de procurar acolher, sofregamente, os gostos populares. Se não lhes corresponderem, perderão audiência. Por isso retratam o que é a sociedade. Devolvem-lhe a violência, a falsidade, a crise, que dela colhem. E assim parecem obter sucessor.

Tornam ,em conseqüência, a sociedade ainda pior, mais violenta, mais falsa, mais corrupta. Sabem distinguir entre o joio e o trigo. Mas se contentam em reter e projetar apenas o joio. Dá mais repercussão. Por isso interessa mais. Cria assim uma sociedade do joio, que é a sociedade do vazio.

Antigamente, ou seja, antes desta crise de valores, existia um ponto de referência. Falava-se de uma verdade objetiva. O homem de então não era certamente melhor, nem mais santo, que o de hoje, mas tinha consciência de eventualmente estar errado e de pecar. Reconhecia a existência de valores autênticos, que nem sempre – como ainda hoje – orientavam sua conduta. Por isso se reconhecia pecador e, de quando em vez, endireitava seus caminhos: arrependia-se e voltava atrás. Falava-se até de conversão. Hoje este ponto de referência se eclipsou. Não adianta falar de misericórdia de Deus, porque ninguém pensa necessitar dela. O pior pecado do século XX, segundo Pio XII, foi ter perdido o sentido do pecado. E nós somos herdeiros desta crise. Chega-se até a reclamar se a Igreja aponta valores para a vida!

PARA REFLETIR
1. Em que consiste a crise dos valores?
2. Como a fragilidade dos vínculos levou à crise dos valores?
3. Como os meios de comunicação derrubam os valores?

Dom Dadeus Grings
Livro: Cartilha da Mudança. A nova época humana.

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