O conceito de Deus na Maçonaria

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 266 - Ano 1983 - p. 40
por Valério Alberton

Em síntese: O livro em foco tem em mira redimir a Maçonaria da acusação de antirreligiosa. Afirma que a Maçonaria tradicional e regular, professando o Grande Arquiteto do Universo, de um lado, evita toda forma de ateísmo e, de outro lado, não se enquadra em tipo algum de teísmo; documentação e não pode deixar de ter valor no diálogo entre a Maçonaria e a Igreja Católica, pois esclarece atitudes e princípios.

Ora esta conclusão parece um tanto simples demais, pois dentro da Maçonaria regular há um amplo leque de posições religiosas inclusive a profissão de fé cristã (nas Lojas de origem protestante). Além disto, há Lojas de Maçonaria dita "irregular" que rejeitam a proclamação do Grande Arquiteto do Universo. Donde se vê que as posições da Maçonaria diante da Religião são múltiplas. Como quer que seja, o livro é muito rico em documentação e não pode deixar de ter valor no diálogo entre a Maçonaria e a Igreja Católica, pois esclarece atitudes e princípios.

Comentário: O Pe. Valério Alberton S. J. tem-se distinguido por seus estudos sobre a Maçonaria", que é a sua tese apresentada ao I Congresso Maçônico Internacional de História e Geografia do Rio de Janeiro (19-21/03/1981). O livro tenciona esclarecer o debate sobre o caráter religioso ou irreligioso, teísta ou deísta, da Maçonaria - o que lhe confere importância, pois a problemática é decisiva para uma justa avaliação daquela sociedade. Abaixo exporemos o conteúdo do livro, ao que se seguirá breve comentário.

O livro em pauta

O autor distingue duas fases na história do conceito de Deus dentro da Maçonaria: 1) o período operativo (desde as origens até 1723), 2) o período especulativo (de 1723 até nossos dias). Este último se subdivide em outros dois: a) o da Maçonaria regular ortodoxa, que vai de 1723 aos nossos tempos; b) o da Maçonaria irregular, heterodoxa, que é uma dissidência da Regular a partir de 1877 até nossos dias.

1.1. O período operativo

Chama-se "período operativo" a fase da Maçonaria medieval que constava de corporações de pedreiros (operativos, porque voltados para a operação ou o trabalho manual). As origens desta fase são as das próprias corporações de artífices medievais.

Como se compreende, os pedreiros da Idade Média tinham um conceito de Deus haurido na S. Escritura ou trinitário. Os documentos da época, chamados Old Charges (Antigos Deveres), geralmente se abrem em nome da SS. Trindade, acrescentando, por vezes, a menção da SS. Virgem Maria e de santos. Eis alguns espécimens:

A Constituição de York, datada de 926, se é autêntica (há quem o conteste, ao lado de quem o afirme), vem a ser o mais antigo documento dos pedreiros medievais hoje existente. Assim reza o seu preâmbulo:

"Que a Onipotência de Deus Eterno, Pai e Criador do céu e da terra, a sabedoria do seu Verbo e a influência do Espírito por Ele enviado estejam conosco e com os nossos trabalhos e nos concedam a graça de nos conduzir, de modo a merecer a sua proteção nesta vida e a vida eterna na outra, depois da nossa morte!"

O Estatuto dos Trabalhadores de Pedra de Ratisbona, datado de 1459, começa da seguinte forma:

"Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, da bem-aventurada Virgem Maria, como, também, de seus bem-aventurados servos os quatro santo coroados, à sua eterna memória".

Ainda em 1686 um manuscrito dos Old Charges se inicia com as seguintes fórmulas:

"Temei a Deus e guardai seus mandamentos, porque é este o dever do homem.

Em nome do Grande e Santo Deus, a Sabedoria do Filho e a Bondade do Espírito Santo, três Pessoas e um só Deus, sejam conosco agora e sempre. Amém".

A documentação demonstra que tal profissão de fé em Deus vasada em linguagem tradicional católica esteve em uso nas Lojas de Pedreiros até o século XVIII.

1.2. O período especulativo:... até 1877

Sabe-se que as corporações medievais de pedreiros perderam a sua voga no século XVI, quando a cultura e a arte em geral tomaram novos rumos. Os construtores em pedra, que eram favorecidos por privilégios das autoridades civis e religiosas, declinaram no cenário público. Em conseqüência, foram recebendo em suas agremiações pensadores e filósofos, que nada tinham em comum com a profissão dos pedreiros, mas que davam novo prestígio às respectivas Lojas. Assim a Maçonaria dita "operativa" tornou-se "especulativa".

Em 1723 foram promulgadas as Constituições elaboradas pelo pastor protestante escocês James Anderson como Magna Carta da Maçonaria Especulativa, que então iniciava a sua história.

Essas Constituições ainda aludem à Bíblia, mas adotam a expressão "Grande Arquiteto do Universo" para designar o Senhor Deus; tal apelativo já era, de certo modo, conhecido e propagado pela arte medieval, que se comprazia em apresentar Deus como Arquiteto do mundo; todavia não era propriamente bíblica nem se achava nos Old Charges.

Eis, por exemplo, como se exprime o artigo 1º da Parte II das Constituições de Anderson:

"Adão, nosso Pai, criado à imagem de Deus, O GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO (...)"

Nesta frase, vê-se que o título "Grande Arquiteto do Universo" ainda é colocado em relação com a revelação bíblica ou com o conceito teísta de Deus.

Em 1738 as Constituições da Grande Loja de Londres redigidas por Anderson foram modificadas (...). No tocante à Religião, ai está dito o seguinte:

"Um maçom é obrigado na sua dependência, a observar a Lei Moral como um verdadeiro noaquita e, se entende corretamente o ofício, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso, nem agirá contra a sua consciência.

Nos tempos antigos os maçons cristãos eram obrigados a concordar com os usos cristãos de cada país por onde viajavam ou trabalhavam; mas, sendo a Maçonaria fundada em todas as Nações, mesmo nas que praticam várias religiões, são eles agora unicamente obrigados a aderir àquela religião na qual todos os homens estão de acordo (cada irmão vivendo em sua própria e particular opinião), que é a de serem homens bons e sinceros, homens honrados e pobres, quaisquer que sejam as denominações, religiões ou crenças que possam distingui-los, por estarem todos de acordo com os três grandes artigos de Noé, que são suficientes para preservar o Cimento da Loja. Assim a Maçonaria é o Centro de sua União e o Feliz Meio de conciliar pessoas que teriam ficado perpetuamente separadas".

Como se vê, este texto afirma que todo maçom "há de aderir à religião na qual todos os homens devem estar de acordo". Esta passagem preconiza indiretamente uma religião meramente natural ou racional sem confissão religiosa revelada (é o que parece, de seu modo, insinuar a menção de Noé, patriarca anterior a Abraão e à revelação judeo-cristã; cf. Gn 6-9). Em conseqüência, o texto das Constituições tenta incutir apenas preceitos de lei natural, a saber: a proibição de servir aos ídolos e falsos deuses, a de blasfemar e a de matar. Foi provavelmente essa fórmula deísta¹ que suscitou reservas por parte da Santa Sé e, consequentemente, a primeira Bula de condenação da Maçonaria datada de 1738 ("In Eminenti" de Clemente XII). Todavia V. Alberton afirma que a formulação deísta era entendida em sentido cristão por não poucas Lojas maçônicas cujos membros protestantes (na Inglaterra) ou católicos (na França).

Sobre este pano de fundo é que teve origem uma nova modalidade da Maçonaria.

1.3. O período especulativo a partir de 1877

1.3.1. Na França

A França do século XVIII se ressentiu fortemente do racionalismo dos enciclopedistas, que chegou até o ateísmo no século XIX. Ora as Lojas Maçônicas francesas foram recebendo em seu grêmio pensadores liberais, o que contrariava aos princípios da Constituição de 1738. Tenha-se em vista, por exemplo, o caso do ateu proudhon: por ocasião de sua iniciação na Maçonaria, foi-lhe dirigida a pergunta ritual: "Quais são os deveres do homem para com Deus?" Ao que respondeu taxativamente: "A guerra". Apesar disto, foi admitido aos 8/06/1847, violentando-se assim um preceito fundamental da Maçonaria. Infiltraram-se nesta ainda as idéias dos "Iluminados da Baviera", dos "Filadelfos", dos "Carbonários" e de outras correntes anticlericais, anti-religiosas e antiteístas. Disto resultou em 1877 a eliminação, por parte do Grande Oriente que prescrevia a crença em Deus e na imortalidade da alma; ao mesmo tempo foram eliminados do Ritual do Grande Oriente do Universo". A razão alegada para tal reviravolta foi a defesa da "absoluta liberdade de pensamento", princípio este que estava muito em voga na época em que levava ao relativismo e ao liberalismo.

Eis como o Pe. Valério Alberton descreve o andamento dos debates que terminaram com a supressão do famoso artigo 1º das Constituições de Anderson:

O Grande Oriente da França reuniu-se em assembléia geral a partir de 10/12/1877, presentes 180 delegados sob a presidência do Ir. De Saint Jean. "Na Quinta sessão foi posto em ordem do dia o pedido de alteração do art. 1º das Constituições, que suprimia a declaração nela contida de que "a Maçonaria francesa professa como princípio fundamental a crença em Deus e na imortalidade da alma".

Relator oficial era o pastor protestante Frederico Desmons, a quem se atribui, sobretudo, esta supressão. Muitas vezes lembraram esta sua qualificação de pastor para afirmar que o Grande Oriente, na ocorrência, dera grande prova de tolerância e, se se ousa dizer, deixou a Deus todas as suas chances. A verdade, porém, é que, como lembra Allec Mellor, cinco anos depois este radical apostatou de sua Igreja e na sua morte teve exéquias puramente civis, tendo sido sua carreira política de um radical da IIIº República.

Desmons procura justificar dois temores, em seu discurso: o perigo de o Grande Oriente de França acabar ficando isolado, e o de que a atitude contra o art. 1º pudesse ser interpretada como propaganda ateística.

Quanto à primeira, Desmons relembra que a solicitada supressão já havia ocorrido na Grande Loja de Buenos Aires, sua ausência nas Constituições da Grande Loja húngara e que na França mesma o artigo discutido fora introduzido apenas em 1848.

Quanto ao segundo, diz que o receio era de que fosse substituída por uma fórmula materialista e atéia. Ora, continua ele, "nenhum de nós, ao propor essa supressão, entende fazer profissão de ateísmo ou de materialismo (...) a vossa Comissão expressamente declara que, aderindo à proposta, apenas se propõe como finalidade a de proclamar a absoluta liberdade de consciência". Desmons achava também constituir o art. 1º "uma barreira dogmática" capaz de desanimar os livres pensadores que pretendessem ingressar em Maçonaria. De fato, o Grande Oriente não faz profissão de ateísmo e mais ainda não impõe aos seus adeptos a condição de ateísmo. "O ateísmo é, bem como o teísmo, uma tomada de posição metafísica e, como tal, o racionalismo da Obediência não o subscreveria. O que se suprimiu no Convento foi a obrigação do maçom de crer em Deus. Deus facultativo. Mas foi o suficiente para que, de fato, Deus fosse expulso e que o Grande Oriente fosse marginalizado da Maçonaria universal".

A redação nova proposta era a seguinte:

"A Maçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por finalidade a busca da verdade, o estudo da Moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípio a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Tem por divisa: liberdade, igualdade, fraternidade".

O Ir. Cauzard propôs, depois, o seguinte adendo:

"A Maçonaria não exclui ninguém por suas crenças".

O "TEICÍDIO" se realizou com relativa facilidade. Nem foi preciso votar por meio das bolas (brancas e pretas, como é de praxe na Maçonaria). A proposta passou com dois terços de votos favoráveis" (ob. cit., pp. 144-146).

Entrementes as Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda continuaram a professar a sua crença religiosa, característica da Maçonaria em suas origens. Por isto romperam com o Grande Oriente da França e proibiram qualquer relacionamento entre as Lojas de sua obediência e as Lojas filiadas ao Grande Oriente.

Todas as vezes que o Grande Oriente da França pediu reconciliação às Lojas inglesas, esta lhe foi denegada, mediante a reafirmação dos princípios fundamentais das Constituições de Londres, como se se dissesse: "Retifica teus rumos, e te reconheceremos".

1.3.2. Fora da França

A atitude do Grande Oriente da França encontrou eco na Bélgica, na Itália, na Espanha e em Portugal. Na Itália, por exemplo, as Assembléias Constituintes de 1869, 1872 e 1896 discutiram a abolição da fórmula "Grande Arquiteto do Universo" (G. A. D. U.); se não foi supressa, foi ao menos esvaziada por exemplo, como se depreende dos seguintes fatos:

"Em 1874, o Irmão Conrad pedia a abolição também na Itália, mas o Grão-Mestre Massino se opôs. Bacci comenta o caso da seguinte maneira:

"Não acreditamos que o ir.: Conrad tenha sido muito feliz filósofo quando diz que a conservação do G. A. D. U. importa numa afirmação de um princípio religioso. Sabem, aliás, todos que aquela fórmula, por consenso universal, não admite nenhum significado exclusivo, muito menos um conceito religioso: é uma fórmula que pode acomodar-se a todos os gostos ainda o de um ateu".

Dois anos depois, o mesmo Bacci escrevia num editorial de revista:

"Como se apresenta o ano de 1877? Como um campo de batalha Grave e importantíssima questão agita a Maçonaria mundial. O Congresso de Losana, em primeiro lugar, depois o Supremo Conselho de Charleston, em seguida os Grande Orientes da França e da Bélgica, e dentro em pouco talvez também a Grande Loja da Inglaterra, disputarão em torno da conservação ou abolição da fórmula A.A.D.G.A.D.U.; não apenas, mas se perguntarão qual o princípio filosófico que o justifica..." (extraído do livro de Alberton, pp. 141s).

1.3.3. Consequências do ato de 1877

O ato do Grande Oriente da França datado de 1877 redundou em ruptura da Maçonaria em duas correntes: 1) a tradicional e ortodoxa representada pelas Lojas da Inglaterra, da Irlanda, da Escócia e as que se lhes filiam; 2) a dissidente, laicista ou mesmo atéia, subsistente no Grande Oriente da França e nas Lojas afiliadas.

A guinada de 1877 implicou alteração do Rito Maçônico Francês pela eliminação de todas as orações e alusões a Deus Visto que os dirigentes da III República eram maçons militantes, todas as leis anticlericais votadas posteriormente foram em fins do século XIX, e começo do século XX, resoluções de assembléias maçônicas. Assim, por exemplo, em 1899 a Maçonaria francesa votou a supressão da Missa do Espírito Santo por ocasião da abertura do ano judiciário na França. Em 1902, foi proibida, na França, a cerimônia de batismo de navios bem como a celebração de Missas a bordo. Em 1903 uma circular do Grande Oriente admoestou os parlamentos maçônicos no sentido de que, se votassem em favor do auxílio do Estado aos cultos religiosos, violariam os seus compromissos maçônicos. No mesmo ano todos os Religiosos foram expulsos dos hospitais. Em 1903-4 foi prescrito o fechamento de todas as escolas mantidas por Institutos religiosos; estes tiveram seus bens confiscados.

Finalmente em julho de 1904 o ministério Combes levou a termo o processo de laicização da vida na França, propondo ao Congresso a separação entre a Igreja e o Estado; a ruptura foi aprovada pelos parlamentares (341 votos contra 233 na Câmara dos Deputados; 179 votos contra 103 no Senado). A lei de separação, de 9/12/1905, garantia geral liberdade de consciência e de culto, mas proibia toda forma de apoio, da parte do Estado, a qualquer culto religioso.

1.3.4. No Brasil

A Maçonaria no Brasil sofreu a influência do Grande Oriente de França, movendo a Questão Religiosa. Esta teve seu ponto alto por ocasião da prisão, em 1874, de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, bispo de Pernambuco (1871-1877), e de Dom Antônio de Macedo Costa, bispo do Pará.

Em 1908, o Grande Oriente do Brasil submeteu à apreciação das Lojas a seguinte tese:

"O atual momento histórico exige a simplificação dos rituais, de modo que domine no interior de todos os templos o princípio da mais larga tolerância, abrigando no meio da Maçonaria os deístas e os ateus, os sectários de quaisquer religiões e os livre-pensadores".

A Maçonaria brasileira dividiu-se também em regular e irregular... Em 1973, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil mandou proceder a um levantamento das diversas orientações das Lojas maçônicas do Brasil, chegando à seguinte conclusão:

R I T O                                       Lojas que o adotam          Percentagem sobre o total das Lojas

Rito Escocês Antigo e Aceito                    686                                          85,03%

Rito Francês Moderno                               48                                             5,94%

Rito Adonhiramita                                      40                                             4,95%

Rito Brasileiro                                            18                                             2,23%

Rito York                                                  12                                             1,48%

Rito Schroeder                                            3                                              0,37%

De todos estes ritos ou obediências maçônicas, apenas o Rito Francês Moderno é arreligioso ou mesmo anti-religioso. O Rito Escocês Antigo e Aceito, o mais difundido no Brasil, é fiel às tradições religiosas maçônicas; vem a ser o mais rico em simbolismo. Distingue-se por duas características essenciais: 1) o hermetismo nos três graus denominados "azuis" (aprendiz, companheiro e mestre); 2) o fenômeno dos Altos Graus (do 4º ao 33º).

Reflexão

O Pe. Alberton conclui seu livro, afirmando que a Maçonaria tradicional e regular, professando o Grande Arquiteto do Universo, de um lado, evita todo ateísmo e, de outro lado, não se enquadra em forma alguma de teísmo: ela proclama simplesmente o deísmo ou a religião natural ou a teologia natural, filosófica. Maçonaria é filosofia, não é fé:

"As Grandes Lojas Unidas da Inglaterra, da Irlanda e da Escócia, firmando, invariável e ininterruptamente, o verdadeiro conceito do G. A. D. U. na Ordem, não estão dogmatizando ou estão sendo menos liberais, no sentido empregado pelo Grande Oriente de França. Apenas defendendo um landmark - ou rule ou ainda old charge - fundamental delas. E muito menos ainda estão querendo defender uma determinada religião, o que seria contra todo o espírito e toda a letra das Constituições andersoneanas, mas a religião natural, que se baseia na Teologia Natural (ou Teologia Fundamental, ou ainda Teologia Filosófica), que é a Teodicéia uma das disciplinas ensinadas pela verdadeira Filosofia desde os tempos dos filósofos gregos e de muito antes de Cristo, sobretudo por Platão e seu genial discípulo Aristóteles, Filosofia esta que, penso, os maçons se vêem impelidos a estudar, já que sua instituição é eminentemente FILOSÓFICA e até, como dizem alguns, MAÇONARIA É FILOSOFIA" (pp. 242s).

Ora esta conclusão parece-nos um tanto simples demais. Pode-se dizer que dentro da Maçonaria regular há um amplo leque de posições religiosas: existem, sim, Lojas fiéis aos princípios cristãos (geralmente protestantes) dos seus fundadores, como também existem Lojas adeptas de uma teologia meramente natural. Além disto, há Lojas, ditas "da Maçonaria irregular" que rejeitam a proclamação do Grande Arquiteto do Universo. Vê-se assim que as posições da Maçonaria diante da religião são múltiplas - o que torna complexa a face da Maçonaria. É preciso, pois, examinar Loja por Loja para se definir a posição de cada Loja maçônica. É esta a conclusão (aliás, não totalmente nova) que se tira do livro em pauta. A Maçonaria vem a ser aquilo que dela fazem os membros de cada uma de suas Lojas: se estes são religiosos. A Loja tomará atitudes de respeito à fé; se são irreligiosos, a Loja respectiva não respeitará os valores religiosos.

O livro do Pe. Alberton é muito rico em documentação: a sua leitura é altamente instrutiva. Todavia é pouco sistemático ou ordenado: retorna mais de uma vez ao mesmo assunto depois de o haver abordado. Apresenta várias digressões que consideram a história comparada das Religiões, a história da Filosofia, a Teodicéia, as provas metafísicas da existência de Deus (...). O que o autor do livro transmite ao leitor é interessante e válido: todavia torna a leitura da obra difícil ou pesada, porque contribui para que se perca o fio do pensamento do Pe. Alberton.

Isto não impede que tal obra tenha seu valor no diálogo entre a Maçonaria e a Igreja Católica, pois esclarece atitudes e princípios. Possa tal escrito cumprir a missão para a qual foi concebido!
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¹ Por deísmo entende-se a religião natural ou aquela que a razão humana é capaz de conceber, sem o auxílio da Revelação Divina. Ao contrário, teísmo é a religião iluminada pela Revelação sobrenatural de Deus aos homens, revelação que começa com a manifestação de Deus ao Patriarca Abraão (século XIX a.C.).

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