"Por que as coisas que dão prazer são proibidas?"

Será verdade?

Em síntese: A pergunta acima está equivocada; nem todo prazer é moralmente mau. Na verdade o prazer é um epifenômeno ou algo que sobrevem a determinado ato; não pertence à essência de algum ato. Por exemplo, beber é um ato que tem anexo um prazer; ora, se a moralidade desse meu beber é má, meu prazer será ilícito. Portanto não é o prazer que determina a moralidade de um ato, mas é o ato mesmo que determina a moralidade do prazer. Há, pois, modalidades de prazer lícitas e outras ilícitas.
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Redação de PR recebeu de um grupo de amigos a pergunta: "Por que as coisas que dão prazer são proibidas?" De imediato respondemos que o prazer não é sempre condenável. Pode ser que o interlocutor tenha em vista uma das formas de prazer hoje em dia muito freqüente, a saber: o uso da sexualidade. Visto que a Moral católica rejeita certas práticas sexuais hoje em dia muito freqüentes, o jovem terá generalizado, afirmando que o prazer como tal é proibido.

O equívoco oferece-nos a ocasião de tratar do prazer em seu amplo significado nas páginas subseqüentes. Antes, porém, de responder à questão acima propriamente dita, explanaremos alguns traços da filosofia do prazer, também chamada "hedonismo".

1. Hedonismo: que é?
A palavra hedonismo vem do grego hedys, suave, agradável. Hedonismo portanto é o sistema ou a tendência filosófica que apregoa o prazer como valor supremo, norma e finalidade de todo o agir humano. É a conseqüênciado empirismo ou do sistema que só aceita o que se pode experimentar mediante os sentidos; ignora a existência de seres espirituais, como Deus e a alma humana ou o campo da metafísica, de modo que o hedonismo não pode atingir o deleite que os valores espirituais proporcionam. Em lugar de tais prazeres, é estabelecida a praxe ou a conduta humana que acarreta vantagens sensíveis como o prazer e o bem-estar sensíveis ou sensuais.
O hedonismo, também dito "Epicurismo", é geralmente uma tomada de posição concreta, que recusa profundas reflexões; não é, pois, um sistema filosófico rigorosamente estruturado.

2. Hedonismo: traços de história
a) Aristipo (+ 360 a.C.)
O primeiro filósofo que tenha proposto de maneira explícita o hedonismo é o grego Aristipo (435-360 a.C), fundador da Escola de Cirene.
Afirma que é sábio satisfazer, de imediato e sem hesitação, o desejo de felicidade que há no homem. É preciso seguir os impulsos da natureza e dar-lhes satisfação. Não há dúvida, esse tipo de prazer, por mais intenso que seja, é efêmero, mas o homem não pode esperar algo melhor; é preciso contentar-se com a alegria de um momento.
Quando alguém lembrava a Aristipo o baixo nível de algumas modalidades de prazer, respondia que não se deve avaliar o prazer segundo critérios intelectuais. O prazer como tal, mesmo em nível tido como baixo, é sempre um bem.
Aristipo, assim raciocinando, é dos filósofos antigos o mais avançado na estima do hedonismo.
b) Epicuro (+ 270 a.C.)
Epicuro também foi hedonista, mas em termos diferentes dos de Aristipo. Levou uma conduta de vida mais digna do que seu predecessor. Admite, sim, que o prazer é a finalidade da vida humana, mas entende-odiversamente do seu antecessor. Epicuro é um homem doente; não concebe a alegria como uma emoção, mas como a ausência de dor ou de problemas de digestão. Não procura excitar-se pelo prazer, mas deseja chegar à calma e à imperturbabilidade (ataraxía); esta calma inclui a renúncia a ambições: "Vive às ocultas", recomenda ele, porque quem se envolve na vida pública acarreta para si muitas dores de cabeça. Existem desejos naturais, aos quais devemos satisfazer (a comida e a bebida, por exemplo). Há desejos que são naturais, mas não necessários (o bem-estar) e há desejos que não são nem naturais nem necessários, como, por exemplo, o de uma vida luxuosa. O sábio se contenta com a satisfação dos desejos naturais e necessários; tendo pão e água, o sábio goza de felicidade que rivaliza com a dos deuses. Assim o epicurismo prega o desapego e a indiferença frente aos bens materiais. Os pósteros o converteram em sistema que procura o prazer sensível pelo prazer mesmo, tirando a Epicuro algo dos seus sentimentos mais elevados.
c)  Os pósteros
O hedonismo foi muito criticado pela Filosofia grega posterior como também pelos pensadores latinos, ficando sempre reduzido a um pequeno grupo de "gozadores da Vida".
Os cristãos o rejeitaram. Todavia no século XVI o Renascimento da cultura clássica suscitou novas formas de hedonismo com Valia na Itália e Gassendi na França. Mais recentemente ainda se ouvem vozes hedonistas como a de Menaico no seu livro "O Imoralista", onde se lê: "Não aspiro senão ao que é natural; cada vez que faço algo que me dá prazer, tal prazer é para mim o sinal de que procedi bem".
Perguntamos agora:
 3. Que dizer?
Proporemos quatro observações:
1)  O hedonismo se engana quanto ao papel do prazer na vida do ser humano. O prazer é um epifenômeno, ou algo que decorre de determinado procedimento; não pertence à essência desse procedimento([1]). Por conseguinte não é o prazer que define a moralidade de um ato, mas é a moralidade do ato que define a moralidade do prazer. Retomando o exemplo de beber, diremos: se bebo licitamente algo que me dá prazer, tal prazer é lícito; mas, se bebo ilicitamente embriagando-me, meu prazer será ilícito. O uso da sexualidade em condições moralmente lícitas proporciona um prazer lícito (como ocorre entre esposo e esposa); quando, porém, alguém pratica o seu uso indevidamente, goza de um prazer ilícito ou moralmente mau!
2)  Rejeitando o hedonismo, o cristão deve precaver-se contra o extremo oposto, ou seja, contra o rigorismo e o jansenismo, que podem equivaler ao medo de viver. O cristão pode procurar o prazer, contanto que o faça dentro das normas da moralidade; pode, por exemplo, procurar ouvir um concerto musical, fazer uma viagem de turismo, assistir a um filme, desde que esses procedimentos sejam moralmente bons; ele o fará a título de recreação, a fim de restaurar suas forças. O prazer é então uma dádiva de Deus. São Paulo lembra: "Todas as coisas pertencem a vós, mas vós pertenceis a Cristo" (cf. 1Cor 3, 22).
3)  O hedonismo, proclamando o prazer como finalidade da vida humana, opõe-se ao Cristianismo, que apregoa o amor desinteressado de si e todo doado ao próximo carente. O modelo do cristão é Jesus Cristo, que aceitou o sofrimento para salvar o gênero humano. Altruísmo cristão e egoísmo hedonista se contrapõem radicalmente.
4)  A própria Filosofia grega pré-cristã distinguia entre as faculdades inferiores dos sentidos e as faculdades superiores intelectuais; estas são mais nobres do que aquelas. Em nome dessa distinção Aristóteles criticava o hedonismo; a verdadeira riqueza do homem se encontra dentro dele e consiste no desabrochamento da inteligência e da vontade. Requer-se um constante esforço do homem para reprimir o fogo das paixões. Os antigos sábios valorizavam essa procura de autodomínio para que o homem possa gozar de tranqüilidade e apreender o gozo proporcionado pelas faculdades intelectuais.


[1] O ato sexual dá prazer, todavia a finalidade do aparelho genital não é propriamente o prazer, mas a reprodução da espécie humana quando a natureza é fecunda. O prazer é um anexo estimulante. Por isto são condenados todos os tipos de preservativos; mutilam o ato sexual, impedindo o seu exercício natural para usufruir do prazer anexo.

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