A televisão e suas influências

Uma Escola. .. de quê?

Em síntese: A televisão, ao lado de inegáveis benefícios prestados à sociedade, tem sido também uma escola de influências deletérias sobre as camadas menos críticas ou mais desprotegidas da população. Nas páginas subseqüentes vêm apresentados testemunhos e observações de peritos em psicologia, medicina, educação. . . não só do Brasil, mas também do estrangeiro, relativos à repercussão dos programas de violência e pornografia sobre os adolescentes. 


Muito se tem escrito sobre a televisão e seu poderoso influxo na formação das mentalidades. Especialmente os programas de violência e erotismo libertino têm sido apontados como fatores deletérios na vida da sociedade; tornam-se escola subliminar de ampla repercussão tanto nos adolescentes como nos adultos.

Eis que a sociedade intitulada "O Amanhã de nossos Filhos" publicou, através da sua Comissão de Estudos, um opúsculo que apresenta os testemunhos de psicólogos, médicos, educadores. . . relativos â influência da televisão sobre as crianças (estas são mais vulneráveis, embora não sejam as únicas vítimas). O livreto "TV, uma 'Escola', mas de quê? Os Efeitos da TV no Aproveitamento Escolar" é precioso, porque apresenta um clamor generalizado, que parte não só do Brasil, mas de outros países, e que é transmitido por pensadores abalizados. Põe em relevo a ação nefasta do abuso da TV, especialmente sobre os telespectadores menos preparados para a crítica.

Dada a importância de tais testemunhos, passamos a transcrever algumas páginas do opúsculo dentre as mais significativas ([1]):

TV: UMA "ESCOLA", MAS DE QUÊ?

No jogo de influências entre televisão e escola, televisão e família, a TV quase sempre tem levado a melhor. . .

O quadro se agrava se considerarmos que estudos científicos indicam um aumento progressivo das horas passadas diante da televisão por parte das crianças brasileiras.

Em recente pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP), orientada pelo Prof. Samuel Pfromm Netto — autoridade indiscutível na matéria, professor de pós-graduação em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Academia Paulista de Educação — os resultados indicam que a criança brasileira assiste atualmente, em média, a 5:30 horas de TV por dia.

Pfromm Netto afirmou também que "as crianças brasileiras estão vendo, em média, mais televisão do que as de outros países", o que o leva a qualificar a TV como uma"segunda escola, a 'escola paralela' de que fala Friedmann". Com a agravante de que "uma grande porcentagem de brasileiros, com menos de 12 anos de idade, passa mais tempo diariamente diante da 'escola' da televisão do que a sala de aula" (17).

E acrescentou: "As crianças tendem mais a pautar seu comportamento pelo que vêem em vídeos e programas de televisão, do que a seguir instruções verbais de uma pessoa real e fisicamente presente" (18).

Ele considera que a televisão comercial "converteu-se numa espécie de escola de contra-cultura, no pior sentido deste último termo", ou seja, "uma escola de superficialidade, cinismo, deboche, brutalidade, resolução violenta dos conflitos, desrespeito, exacerbação hedonista, excitação sexual precoce e desenfreada, mau gosto, mediocridade e erosão dos valores morais" (18).

RITMO NATURAL DO DESENVOLVIMENTO DE UMA CRIANÇA

A ordem da natureza tem suas leis e seus ritmos. Não pode ser violentada impunemente.
Sobretudo na criança (mas também no adulto), há uma velocidade, adequada a cada indivíduo, que impõe limites à capacidade de absorção de sensações, imagens e informações, matéria-prima de todo o pensamento humano.

Esse ritmo orgânico de apreensão, compreensão e assimilação, embora variável conforme a pessoa, é necessariamente lento e compassado, uma vez que o conhecimento humano se faz por etapas. E um dos segredos da boa pedagogia esta' precisamente em adequar a tais ritmos o que é ensinado.

A criança não nasce raciocinando. Ela primeiro toma contato com o chocalho, as grades do berço, a bola. Observa o pai, a mãe, os irmãos. Como que "sente" e "apalpa" o ambiente doméstico.
Só mais tarde, com o uso da razão, ela irá adquirir a noção genérica e abstrata de bola, pai, mãe, casa etc. E formular em palavras a idéia que concebeu de cada coisa.

A FORÇA DAS PRIMEIRAS IMPRESSÕES

impressão visual — junto com as outras impressões sensoriais provenientes de audição, olfato, gosto, tato — propicia-lhe assim a matéria-prima para a operação da inteligência e a formação de uma noção abstrata e universal das coisas, das pessoas, dos ambientes.

Considerando a força dessas primeiras impressões, o conhecido psicólogo e clínico brasileiro, Dr. Bernardino Mendonça Carleial, enuncia um princípio da Medicina de enorme alcance para a formação da infância:

"As primeiras experiências sensoriais na infância são tão importantes e marcantes que tais impressões são as últimas a sobreviverem, quando o cérebro se desorganiza diante da senilidade, apoplexia, traumatismos físicos e mentais e outros acontecimentos psicofísicos. São também as primeiras a voltarem à recordação, após período de amnésia. Comprova-se assim quão fortes e persistentes são as imagens e impressões vivenciadas e presenciadas na infância" (2).

OS RITMOS DA TV E A DEMOLIÇÃO DA PSIQUE INFANTIL EM CURSO

Ora, é justamente nesse reto processo de formação que a televisão intervém, prejudicando-o, violentando-o, queimando nele etapas, quebrando-o, apresentando problemas para os quais nem psíquica nem fisicamente as crianças estão preparadas.
Horas seguidas elas ficam expostas a torrentes de imagens, que se sucedem em ritmo alucinante, e a informações fragmentárias desconexas.

Absorvem, além do mais, propagandas e anúncios que as solicitam simultaneamente para os mais diversos apetites e inclinações.

Sofrem ainda a contínua descarga de efeitos visuais e auditivos não assimiláveis por elas.

Após horas desse bombardeio televisivo, ficam impregnadas de clichês ideológicos, os quais nem sequer os adultos conseguem devidamente analisar.

SUPERVELOCIDADE DA TV

A Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) realizou recentemente, através do seu Núcleo de Estudos Psicológicos, um amplo estudo sobre televisão e criança. Desse trabalho resultou um relatório técnico no qual se salienta o efeito, até mesmo junto ao adulto, da supervelocidade com que as imagens se sucedem no vídeo:

"A velocidade com que as mensagens são transmitidas e até justapostas, excede normalmente o ritmo necessário à percepção consciente. Daí que a mente do telespectador tende a armazenar as informações valendo-se de catalogação rápida em categorias já preexistentes, uma vez que não há tempo para examiná-las criticamente, perceber os traços de novidade, hierarquizá-las pela relevância, coerência ou outros critérios. . .
"Também existe o fato, percebido até por leigos, de que a velocidade de apreensão cognitiva de uma mensagem varia de acordo com o telespectador. Na TV isso não é respeitado, como o é na leitura, onde o leitor, é quem define seu ritmo de apreensão, dando espaço para uma leitura crítica quando isto se faz necessário" (9).

A SUPERVELOCIDADE NÃO DEIXA TEMPO PARA REFLETIR

A mesma preocupação esta' presente no estudo da já citada psicóloga francesa Mireille Chalvon:

"Pela rapidez e pelo fato de as imagens se sucederem umas às outras, a TV é um mau instrumento de aprendizagem. Ela não deixa à pessoa tempo para refletir, para deter-se um pouco mais demoradamente nos assuntos, como se faz com as frases de um livro. . .
A televisão dirige-se a todos ao mesmo tempo, não podendo atender ao nível de cada um, o que é necessário a toda aprendizagem. A criança aprenderá coisas novas sem localizar onde tais coisas se passam, sem conhecer o contexto geográfico, histórico ou político de um acontecimento. A resposta virá sem que a criança tenha tido tempo de pôr as perguntas" (6).

A SUPER VELOCIDADE LESA A MENTE DA CRIANÇA

Analisando o impacto dessa sucessão desordenada de imagens na mente infantil, diz o referido relatório da Unicamp:
"Considerando o telespectador infantil, podemos dizer que a criança, exposta a uma grande quantidade de informações velozmente transmitidas, está sendo lesada em suas oportunidades de desenvolver-se do ponto de vida cognitivo, e tenderá a atrofiar sua capacidade de abertura da percepção, ou, usando a mesma terminologia de Schanchtel (1959), terá dificuldades de desenvolver uma percepção alocêntrica do mundo, adulta, criativa. Por isso, os estudiosos dizem que a TV infantiliza e limita a consciência dos telespectadores assíduos" (9).

TV E DESTRUIÇÃO DO SENSO CRITICO

O mesmo estudo insiste no fato de que a TV expõe seus pacientes à saturação de clichês pré-fabricados que se repetem.

"A repetição é uma ilusão de conhecimento porque, à força de limitar a experiência, fecha a percepção do mundo e a reduz a clichês; e, ainda, confina o indivíduo ao prazer infantil do jogo: segurança do sempre-o-mesmo, das regras fixas. Acaba 'ensinando' a criança a não ousar. Não responde à sua curiosidade nem a desenvolve. O mundo passa a ser visto como algo que não oferece nenhum desafio ou interesse" (9).

Esses clichês, apresentados em ritmos incompatíveis com o espírito humano, tolhem na criança o processo seletivo natural que acima descrevemos, atrofiando o senso crítico e solapando as bases da verdadeira cultura.

TV, UMA ESCOLA DE IMBECILIZAÇÃO E DE "ANALFABETISMO FUNCIONAL"

O Prof. Salomão A. Chiab, médico e estudioso de problemas psicológicos, em entrevista concedida ao "Informativo TV Plebiscito", não vacila em apontar as conseqüências da assistência passiva aos programas de TV:

"Assistindo passivamente à sucessão de imagens e emoções que lhe são inculcadas, o indivíduo sofre um bloqueio mental, cessa de pensar, de criar, de ter iniciativa, fica embrutecido intelectualmente, pois é levado, de modo inevitável, a afastar-se de todas as outras grandes obras da inteligência, do raciocínio, da arte e da cultura" (5).

Daí o fato de especialistas de renome referirem-se á televisão como "massificadora", produtora de "imbecilização", de "subcultura". Ou, como a qualificou o biólogo André Lwoff, Prêmio Nobel de Medicina, "o principal fator de retardamento intelectual e afetivo" do mundo contemporâneo (14).

Daí também ter sido ela acusada de promover o analfabetismo funcional (ou seja, aquele tipo de "analfabetismo" de quem aprendeu as letras, mas na prática não sabe o que fazer da função de ler e escrever) por especialistas reunidos em Madri para o simpósio internacional sobrei revolução informática e os meios de comunicação social (7).

O jornal madrileno "El País", noticiando o referido simpósio, afirma: "Alguns especialistas estimam que o fato de existirem nos Estados Unidos 40 milhões de adultos funcionalmente analfabetos, vai unido ao consumo de televisão e ao uso de outras modernas tecnologias de comunicação... Por esses motivos, muitos estudantes chegam à Universidade sem nunca terem escrito sequer uma carta " (7).

O Prof. Samuel Pfromm Netto também aborda o assunto, tratando especificamente das crianças:

"Referindo-se ao consumo habitual de programas de televisão pelas crianças, Williams (1986), com base em resultados de pesquisas, conclui que 'a televisão tende mais a inibir do que a facilitar os aspectos do pensamento infantil pesquisados' (criatividade, inteligência, vocabulário etc.)" (19).

TV APRESENTA PROBLEMAS IMPRÓPRIOS PARA A PSIQUE DAS CRIANÇAS

O ritmo normal de absorção da mente da criança e do adulto é também violentado pela TV no que toca â notícia dos acontecimentos humanos e de certas anomalias ou aberrações da natureza.

Certa novela brasileira ainda há pouco lançou, dentro dos lares, a problemática do hermafroditismo, fenômeno ignorado pelo grosso da população, raro na medicina e estudado apenas por médicos especializados.       .

Problemas como esses, completamente estranhos ao ambiente onde se move a grande maioria das crianças, são expostos prematuramente pela TV aos olhos infantis ainda imaturos.

O Prof. Franz-Dietrich Poelert, em seu livro Educação e Manipulação, diz com acerto:

"A televisão transmite as mesmas informações a todos, e de um mesmo modo, indiferente a idade, sexo, inteligência e experiência da vida. Seja homossexualismo ou incesto, divórcio ou corrupção, brutalidade ou sadismo. . . tudo é oferecido sem que se faça uma distinção entre crianças e adultos" (20).

No trato de assuntos tais, um bom professor evitara' sempre uma abordagem imprudente, pela possibilidade de acarretar reflexos altamente negativos para a formação da criança.

A TV, tal como existe hoje, faz tábula rasa dessa norma elementar de prudência. Essa total falta de escrúpulos expõe assim os pacientes infantis a problemas psíquicos às vezes irreparáveis.

IMPACTO NEGATIVO DAS CENAS ERÓTICAS E VIOLENTAS

O relatório da Unicamp, já citado, analisa do ponto de vista médico o impacto negativo das cenas eróticas in genere sobre o telespectador infantil:

"Crianças de 6 a 10 anos. . . encontram-se na fase que, em Psicanálise, é chamada de latência [ou seja, período de reorganização e preparo para a puberdade]. . . A estimulação e a exposição precoce ao erotismo leva a criança a 'queimar uma etapa', ou seja, a passar pela latência sem elaboração e organização. Na prática clínica, especialmente, temos visto conseqüências negativas dessa inadequação dos programas oferecidos às crianças" (9).

Opinião semelhante manifesta, com sua autoridade de médico e de psicólogo, o ja' citado Dr. Bernardino Mendonça Carleial:

"Torna-se difícil avaliar as conseqüências patológicas da TV sobre as mentes, quando não se conhecem os mecanismos neuropsicológicos e tampouco quando não se tem contato com as vítimas desse processo de decadência, patrocinado pela TV. Os psicoterapeutas responsáveis, que estudam com profundidade o cérebro e a mente, bem como atendem diariamente pessoas mentalmente prejudicadas pelas aberrações televisionadas, sabem muito bem que se devem condenar com veemência muitos filmes e programas de televisão" (2).

O Dr. Carleial condena ainda a superficialidade, do ponto de vista médico, com que alguns defensores incondicionais da televisão1 se apresentam em certos debates promovidos pela imprensa ou em programas da própria TV:

"De modo geral, tais pessoas não têm a mínima competência para opinarem sobre patologia mental. . . Muitos ainda defendem a TV por desconhecerem os efeitos no cérebro, produzidos pela estimulação negativa, que recaem sobre as pessoas cujas personalidades encontram-se em formação e naquelas que a têm deteriorada.. . 0 que mais surpreende são as opiniões de certos profissionais da área da saúde mental e da educação. Elas deveriam conhecer a trajetória dos estímulos veiculados pela TV no cérebro dos telespectadores. Deveriam conhecer as conseqüências, negativas provocadas pelas cenas de violência e erotismo no sistema límbico e hipotálamo-hipofisário, para a produção da mente das crianças' (2).

Por isso, ele afirma em outro artigo dessa série:

"A televisão foi, realmente, um dos maiores inventos do século... Mas tornou-se, ao mesmo tempo, uma catástrofe neste mesmo século, com a sua ação condicionante negativa. As suas maiores vítimas são ás crianças e os adolescentes que não têm capacidade psicobiológica para analisar e discernir as mensagens desestruturadas projetadas no vídeo" (1).

PODE DEGENERAR EM DROGAS

Outra dificuldade que os professores vêm enfrentando junto a alunos teledependentes é o vício do aprendizado pela imagem, o qual descarta o papel do raciocínio e torna abominável ao aluno qualquer idéia de aplicação e esforço.
"A televisão — diz-nos o psicanalista Bruno Bettelheim, professor de psicologia e psiquiatria na Universidade de Chicago — faz ver às crianças que há ou deve haver uma solução fácil para todos os seus problemas. Isto não é evidentemente o caso, e as crianças ficam insatisfeitas consigo mesmas e com a sociedade. Elas se deixam levar e podem mesmo degenerar em drogas" (11).
Ela confina a criança "no imediato, no fácil, no descartável" — segundo feliz expressão de Rezende & Rezende, citada no documento da Unicamp (9).

ESTIMULA AS REAÇÕES PRIMÁRIAS

Rémy Gaboret, professor de Letras Clássicas e autor de um manual de instruções cívicas, assevera que a TV estimula as reações primárias do indivíduo: "sentir-gostar", "não sentir-não gostar" etc.

Se vamos procurar nos jovens telespectadores os valores que honram o homem — como a capacidade de refletir maduramente, pesando os prós e os contras; de dominar, com o freio de uma vontade forte, os impulsos e as paixões desordenadas; de desconfiar das primeiras impressões e de as analisar com cautela; de fazer esforços constantes para alcançar objetivos árduos — dificilmente encontraremos tais valores.

Em artigo intitulado Na era dos avós-meninos, a revista "Catolicismo" faz uma análise psicológica de um grupo de televiciados, postos diante de um aparelho de TV:

"Todos se entregam inteiramente ao gosto de ver, sentir, quase tocar com as mãos a cena do vídeo. As fisionomias indicam o prazer de sentir a imaginação à larga, enquanto o controle da inteligência cessa inteiramente e a vontade dorme na mais profunda inércia. É o homem reduzido, por uma miserável involução, à condição de um bebê que vive de sensações. Quando a alma chega a um tal estado, adeus lógica, coerência, seriedade. Para ela todo esforço intelectual se torna penoso. Toda atitude enérgica, insuportável. Ê o extremo para o qual são arrastados tantas vezes não só os moços, mas ainda os velhos" (4).


VISÃO MENTIROSA DA VIDA E DO ESTUDO

Como então pedir o esforço de aprendizagem às crianças viciadas no hábito de tão-somente "sentir emoções"?

A boa escola inculca a aplicação, exige o hábito da reflexão e o exercício da memória. Não aplica a sensibilidade, mas convence. Não oferece deleite fácil e superficial, mas atrai para o cumprimento do dever. Procura, enfim, formar homens de pensamento e de ação, almas de valor, mediante métodos pedagógicos que apelam para o empenho da razão e da força de vontade.

A TV, pelo contrário, oferece a lantejoula das sensações irrefletidas. Proporciona emoções repetidas. Traz â pessoa o coruscar de novidades espetaculares. Não exige do adolescente nem esforço, nem análise.

Ela induz a uma visão mentirosa da vida. Por conseguinte, do estudo e do trabalho.

Ela informa sem ensinar, atrai sem convencer, alicia sem comunicar a noção do dever.

Além do mais, transmite mensagens vazias de conteúdo intelectual e moral, apresentando-as como dogmas da "moda".

É natural que, entre uma e outra solicitação, a imaturidade infantil sinta propensão pela TV e repulsa pela escola.

DIMINUIÇÃO DA CAPACIDADE DE MEMORIZAÇÃO

O Dr. Mareei Rufo, professor de Psiquiatria Infantil da Universidade de Marseille e chefe do Inter-Setor I de Psiquiatria Infantil de Bouches-du-Rhône, coordenou uma pesquisa epidemiológica reveladora, realizada na França junto a centenas de adolescentes de Paris e da Cote d'Azur,

A pesquisa constatou uma diminuição da capacidade de memorização, ligada diretamente ao excesso de televisão. No teste conhecido sob o nome de "Rey", os alunos, expostos a duas horas por dia diante da TV, mostraram-se aptos a reconhecer apenas cinco símbolos familiares a eles, quando estes lhes foram apresentados. E tiveram sérias dificuldades de associar imagens, idéias e palavras. Aqueles jovens que se contentaram de ver apenas meia-hora de televisão, identificaram todos os símbolos, sem exceção (22).

Diz-nos o Dr. Mareei Rufo:

"Há um paralelismo inexorável entre o tempo passado a ver televisão e a queda do rendimento escolar, o declínio da capacidade de atenção, da concentração intelectual. Isto é verificável em todos os segmentos de idade e em todos os meios, promiscuamente" (22).

TV E ESCOLA, UMA CONCORRÊNCIA DESLEAL

Por essa razão, a Profa. Michelle Palier, presidente nacional da Federação dos Pais de Alunos do Ensino Público francês, desabafa: "A televisão e a escola estão em concorrência. . . desleal. Porque a influência da primeira sobrepassa largamente a da segunda. Notadamente no que concerne ao sentido do esforço do trabalho e dos valores morais, a televisão tem efeitos desastrosos" (11).

É precisamente o que alguns vêm chamando de intoxicação doce, como a Profa. Jeanne Delais de Fréminville:

"A intoxicação doce faz-se inconscientemente ou deliberadamente. Nossas crianças já sonham através do vídeo. . . Passam mais tempo diante da televisão (1.450 horas por ano) do que sobre os bancos dos colégios (900 horas). A TV tornou-se o seu novo professor. Os jovens franceses não apenas vêem mais de 1.400 horas de televisão por ano; mas são os que, entre todos os europeus, se deitam mais tarde" (11).

E, ainda sobre os efeitos da TV, temos o depoimento de uma professora de um grande Liceu parisiense:

"No curso primário, os ditados de segunda-feira peia manhã foram suspensos, e no curso secundário é impossível fazer exercícios de reflexão nesse dia" (11).

FEMECIMENTO DO VOCABULÁRIO E DA CONVERSAÇÃO

Essa supervalorização do ver e do sentir, própria à TV, tende a empobrecer o vocabulário, que é o instrumento da expressão do pensamento.

O já tão sumário e impreciso vocabulário das crianças e jovens de hoje vai-se estropiando, cada dia mais, na medida em que eles se deixam fascinar pelo vídeo.

Assim se expressam M. Alfonso Erausquin, Luiz Matilla, Miguel Vazquez, no livro Os teledependentes:

"Teme-se que as imagens estejam criando futuras gerações de não-leitores, não só fazendo diminuir o interesse dos jovens pela leitura de livros, como também obstaculizando sua própria capacidade de se expressarem tanto verbalmente como por meio da escrita" (8).

Até na França, pais culto por excelência, a ameaça vem-se fazendo sentir.

Mireille Chalvon constata preocupada a freqüência com que crianças telespectadoras se mostram incapazes de traduzir em palavras aquilo que acabaram de ver.
E a psicóloga explica a razão:

"A TV. . . não propicia a aquisição de linguagem porque é inútil dar nome àquilo que [ simplesmente] se vê.. . Fornecendo imagens, ela se dirige mais aos sentimentos do que ao espírito, oferecendo mais sensação do que noções". (6)

Como a linguagem pede a passagem do concreto para o abstrato, do objeto para o conceito, a psicóloga se pergunta se as imagens, entregues já prontas pela TV, não correm o risco de estancar a possibilidade de abstração da criança.

O psiquiatra L. Moor chega a prognosticar:

"Os que fazem uso imoderado da TV disporão, dentro de 15 anos, de um vocabulário de apenas 200 palavras imprecisas, abreviadas, impróprias, carregadas de onomatopaicos" (16).

Mary Winn, psicóloga e terapeuta norte-americana, autora do livro internacionalmente conhecido The Plug-in-Drug, afirma:

"A criança tem necessidade de adquirir técnicas essenciais de comunicação — aprender a ler, a escrever, expressar-se facilmente e de forma clara —a fim de poder desenvolver-se como ser social. O abuso da televisão não favorece seu desenvolvimento verbal porque não exige nenhuma participação verbal de sua parte, mas sim, somente uma receptividade passiva (27).

Também Florence Nicolas, secretária-geral do Syndicat National des Lycées et Collèges (SNALC), manifesta sua preocupação pelo definhamento do vocabulário francês:

"Palavras como simultaneamente, concomitantemente, fisionomia, hilaridade, não são mais compreendidas. A televisão é irresponsável na medida em que ela reduz o tempo consagrado à leitura. Ora, o vocabulário se adquire principalmente pela leitura. . . . Uma coisa é certa: os resultados escolares estão na proporção inversa do número de horas passadas diante da televisão" (11).

O PROFESSOR, UM ESPETÁCULO A MAIS. . .

Na pesquisa que coordenou, o Dr. Mareei Rufo descreve o que pôde observar:

"O sistema televisivo é montado em torno da idéia de show, de espetáculo. Tudo é continuamente espetáculo. . . A criança . . . espera (e o adulto também) que tudo em torno de si seja apresentado em termos de espetáculo. Sem o que, nada lhe interessará, mesmo se se tratar de coisas essenciais para a vida. Algumas crianças são mesmo incapazes de cumprir seus exercícios de casa sem ter a televisão ligada diante delas. É um fenômeno de intoxicação certamente curioso, a analisar . . . Damo-nos bem conta da verdadeira agressão que representa o exame escolar para essa criança, para esse jovem estudante? Aquilo que lhe é exigido é em tudo e por tudo antitelevisão. A TV não pede ao telespectador que fale. .. . Ela não lhe pede que se comunique. ... A/o dia seguinte, um esforço inaudito: é solicitado, a ele, na escola, que se comunique; a ele, que vê o professor ou o instrutor como um espetáculo a mais, é pedido que participe, que responda às perguntas, que memorize, que reflita. . . É necessário que ele crie, invente, sintetize. Verdadeiramente, é todo um outro mundo!" (23).

DECADÊNCIA NOS VESTIBULARES

Aqui no Brasil temos, nos exames vestibulares, exemplos clamorosos desse retrocesso à linguagem primata.

Os resultados de tais exames são inquietantes. Com assombrosa assiduidade, os alunos naufragam nas provas de redação. Há 20 ou 30 anos, esses rapazes e moças dificilmente teriam conseguido aprovação sequer nos exames de primeiro grau.

Mas, que esperar de jovens que absorvem pelo vídeo expressões de um primitivismo chocante? Por exemplo estas, veiculadas por certa novela e referidas em artigo de Ethevaldo Siqueira:

"— Sem grilo, meu chapa. Seja legal. Não torra, pai. Já tô encucado e você ainda vem me encher? Sai prá lá, cara.. ." (26).

O mesmo articulista comenta com acerto que quase 30 milhões de pessoas (dados de 1977; hoje – 1994-  são mais de 100 milhões) ouvem tais expressões diariamente na TV, assimilando-as com naturalidade inconsciente. O que vai formando "uma nova linguagem brasileira, una e coesa, pobre e eriçada, mas que vai integrando o país de norte a sul"(25).

O Prof. Mareei Rufo também notou nos jovens que foram objeto de sua pesquisa a dificuldade de concatenar o pensamento e dar rumo a uma conversação.:

"É certamente um fato atualíssimo: as pessoas hoje mudam de tema de uma maneira espantosa, incapazes que são de discutir em profundidade determinado assunto, coisa que se transformou em um privilégio de poucos — entretanto, seguramente, acessível a todos. O pensamento parte por todas as direções, balança, não consegue fixar-se em nada" (23).

PERDA DO HÁBITO DA LEITURA

Esse fenecimento da linguagem tem implicações com a perda do hábito de leitura, uma das principais fontes de um bom vocabulário.

Mary Winn estuda a importância desse hábito na formação das crianças e mostra como ele é quebrado pela TV. O comentário é transcrito do interessante artigo TV drogue ou a droga TV, publicado na revista "Rainha", de Porto Alegre:

"A televisado também pode esclerosar a atividade e o desenvolvimento mental da criança, se tomar o lugar da leitura.

"A partir da história que leu, ela cria em sua mente em desenvolvimento um determinado personagem. Seu espírito se ativa, procurando as características humanas no personagem idealizado. Tais experiências — tão necessárias às atividades da imaginação infantil — não acontecem, em absoluto, na televisão, que fornece as imagens realizadas.

"Hoje em dia, por causa da televisão, crianças e adultos lêem muito pouco. Claro, é mais fácil ficar vendo as imagens coloridas falando, dançando, fazendo suas proezas. E quando lêem, mostram-se preguiçosas, pois a televisão não lhes dá a oportunidade e mostra que não há necessidade de que se concentrem tanto, se tudo é mais fácil no vídeo.

"No entanto, a leitura, encarece Mary Winn, é um imprescindível instrumento de desenvolvimento pessoal e de liberdade de expressão e pensamento, enquanto a televisão transforma a criança em escravo de um horário e, mais do que isto, de um mundo imaginário, para não dizer irreal, que nada tem a ver com a autêntica realidade do mundo infantil" (21).

A TV E O CANSAÇO NAS CRIANÇAS

Sobre o cansaço das crianças em aula, os comentários são peremptórios e generalizados, da parte dos estudiosos da questão, com tendo sua causa no excesso de TV.

O Dr. Guy Vermeil, por exemplo, especialista francês em ritmos escolares, declara:

"Primeiro problema: o cansaço. A TV aparece a esse propósito como a inimiga da escola: ela desvia os alunos do trabalho escolar, diminui-lhes o sono noturno, tornando-os sonolentos e desatentos durante as aulas. Ela é um obstáculo ao aprendizado da leitura" (11).

O Prof. Mareei Rufo, com base na já citada pesquisa epidemiológica que realizou, comenta:

"O fracasso escolar, a falta de concentração, as dificuldades de memorização, a agitação das crianças estão diretamente proporcionadas ao tempo que elas passam diante do vídeo. É bem evidente que disto resulta um déficit de sono, com múltiplas reações em cadeia . . . além de se tornarem agitadíssimas na escola e padecerem de insônia" (22).

O Prof. Samuel Pfromm Netto salienta que também em São Paulo têm-se notado fenômenos semelhantes durante as aulas:

"São comuns os casos de crianças pequenas que assistem à televisão cinco, seis ou mais horas por dia. Em classes pré-escolares paulistanas, pela manhã, é habitual a presença de crianças sonolentas, desatentas ou que chegam a adormecer em classe porque permaneceram acordadas até horas avançadas da noite anterior, diante do televisor" (19).

E o Prof. Franz-Dietrich Poelert, já citado, testemunha:

"Tenho visto, por exemplo, na escola, como conseqüência da televisão, o cansaço com que os alunos chegam em determinados dias.. . As crianças de 10-11 anos não estão inteiramente bem dispostas para a aula, quando ficaram até às 23 horas sentadas, vendo jogos de futebol" (20).

L. Moor também aponta para o mesmo fenômeno:

"Quando as crianças assistem às emissões da noite, elas se recolhem tarde, não dormem suficientemente e sáb incapazes de se concentrar sobre seu trabalho escolar, o qual disso se ressente no dia seguinte. Freqüentemente, mesmo se a criança vai deitar-se, ela tem dificuldade em dormir, porque foi objeto de estímulos numerosos" (16).

Chalvon completa essa enumeração, com as seguintes e judiciosas considerações:

"O superconsumo de televisão . . . é certamente nocivo. A superinformação excedendo a capacidade de compreensão da criança é motivo de cansaço e desânimo. A identificação múltipla com heróis variados pode ser a fonte de perturbação. A eterna procura de uma vida excitante e sensacional conduz ao risco de perder o contato com a realidade cotidiana" (6).

TV NO QUARTO:'CRIME CONTRA O CÉREBRO INFANTIL

Por isso mesmo, os especialistas vêem com grande preocupação a instalação de aparelhos de TV em quartos de crianças e adolescentes.

Pesquisa publicada pelo jornal alemão "Frankfurter Allgemeine", e citada pelo Prof. Franz-Dietrich Poelert, diz que uma em cada três crianças alemãs, com idade entre 8 e 11 anos, já tem um aparelho de TV no próprio quarto (20).

Indagado pelo "Informativo TV Plebiscito" sobre o efeito desses aparelhos em quartos de dormir das crianças, o médico Prof. Salomão Chaib foi categórico:

"É um crime contra o cérebro e a saúde mental. Além de roubar preciosos momentos de repouso, adormece-se levando no subconsciente mensagens subliminares de dramas tenebrosos, de emoções negativas que continuam pelo sono adentro através de sonhos agitados, gerando assim crianças nervosas e de pouco rendimento escolar" (5).

A TV E A EVASÃO PARA O IRREAL

E aqui tocamos num dos pontos mais delicados da influência televisiva junto a crianças e adolescentes: a evasão para o irreal.

É esta uma preocupação crescente de pais e professores, conforme testemunho dos próprios organizadores do relatório da Unicamp:

"Várias vezes fomos abordados por pais e professores que estavam preocupados com a questão da fronteira entre o real e a fantasia na criança e queriam discutir o papel da televisão enquanto canal de mais fácil acesso à ficção, hoje, e o mais assíduo fornecedor de um imaginário cada vez mais mirabolante" (9).

Numa criança bem constituída, seu próprio equilíbrio psíquico leva-a, desde cedo, a ir traçando uma fronteira bem definida entre a fantasia e a realidade.

NA CONCLUSÃO, UM DESAFIO E UMA PROPOSTA

Como disse o Prof. E. Samain, citado pelo documento da Unicamp — "os meios materiais de comunicação não são nem neutros, menos ainda inocentes" (24).

De posse desses dados, caberá' aos professores e aos pais analisar em que medida tais problemas afetam seus alunos ou seus filhos.

Alertados por aspectos que talvez julguem novos, aqui apontados no que diz respeito â influência da TV, eles deverão agir em conseqüência na educação e formação das crianças sob sua responsabilidade.

O Brasil de amanhã será forjado pelos jovens que hoje se dedicam verdadeiramente ao estudo? Ou pelos teledrogados que ficam horas a fio diante da TV?

A resposta que o futuro dará a essa pergunta dependerá em larga medida dos pais e professores.

De algum modo, esse futuro está passando pelas nossas mãos, neste momento. E diante de Deus e dos séculos vindouros responderemos por ele.


NOTAS
(1)        Carleial, Bernardino Mendonça, A televisão e a personalidade infantil (I), "Estado de Minas", 19-8-90.
(2)        Carleial, Bernardino Mendonça, A televisão e a personalidade infantil (II), "Estado de Minas", 26-8-90.
(3)        "Catolicismo", no 40, abril/54.
(4)        "Catolicismo", no 85, janeiro/58.
(5)        Chaib Salomão, A., in "Informativo TV Plebiscito", março/93.
(6)        Chalvon, Mireille, Problèmes psychologiques de l'enfant téléspectateur, in "Neuropsychiatrie de l'enfance et de l'adolescence", Paris, 1981,no 29 (3).
(7)        "ElPaís", Madri, 12-10-85.
(8)        Erausquin, M. Alfonso; Matilla, Luiz; Vazquez, Miguel. Os teledependentes, Summus Editorial, São Paulo, 1980.
(9)    Giglio, Zula Garcia; Giglio, Joel Sales; Vizzotto, Marília M., Televisão e criança: um binômio incompatível. Núcleo de Estudos Psicológicos, Unicamp, 1993.
(10)     Lauwe, Marie-Josée Chombart de, L'interaction enfant/télévision, revista "Neuropsychiatrie de l'enfant et de l'adolescence", Paris, 1981, no 29.
(11)     "LePoint", Paris, 1P-9-86.
(12)     Linhares, Maria Cordeiro, in Luiz Lobo, Televisão: nem babá eletrônica nem bicho-papão — A criança ante a tevê, Ed. Lidador, Rio, 1990.
(13)     Lurçat, Liliane, Les jeunes enfants devant les apparences télévisuelles, Esprit, Paris, 1984.
(14)     Lwoff, André, apud Michel Salomon, L'avenir de la vie, Ed. Séghers, Paris, 1981.
(15)     Miller, Michael M., A saúde mental das crianças (IBRASA, São Paulo, 1969), apud Luiz Monteiro Teixeira, criança e a televisão: amigos ou inimigos, Loyola, São Paulo, 1985.
(16)     Moor, L., Influence de la télévision sur le psychisme de l'enfance et de l'adolescence, in "Neuropsychiatrie de l'enfance et de l'adolescence", 29 (3), 1981.
(17)     Pfromm Netto, Samuel, 1o Simpósio Nacional sobre Televisão e Criança, São Paulo, agosto/77.
  
Dom Estêvão Bettencourt

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