A necessidade da Fé impõe-se absolutamente no fato de Deus nos chamar a um fim sobrenatural — viver com Ele no Céu.
Para dirigirmo-nos ao Céu, ou orientar
nossos atos para a vida eterna, é preciso pelo menos conhecer, embora
obscuramente, este fim e os meios sobrenaturais, que são os únicos
capazes de nos fazer consegui-lo.
Na verdade, não se quer se não o que se conhece.
Ora, sem a fé na Revelação pina, não podemos conhecer o fim sobrenatural
para o qual somos chamados. A Fé é pois absolutamente necessária para
nos salvar. "Ide e pregai", disse N. S. Jesus Cristo aos seus apóstolos —
aquele que crer será salvo, aquele que não crer, será condenado.
Como poderíamos conhecer os mistérios da salvação, que são essencialmente sobrenaturais, sem a Fé na Revelação pina?
Nunca ensinaríamos demais esta doutrina fundamental, e para bem compreendê-la, é preciso considerar que há três ordens de conhecimento essencialmente distintas e subordinadas.
1. — Há primeiramente a ordem sensível,
a dos corpos, das pedras, das plantas, dos animais, aquela onde se
move o nosso corpo; conhecemos a realidade desta ordem pelos nossos
sentidos.
Ela tem a sua beleza: a das cores, a dos sons, a da harmonia.
2. — Acima, há a ordem racional,
a das verdades acessíveis à razão. A esta ordem pertence a distinção
do bem e do mal moral, que o animal não saberá perceber. A esta ordem
pertence ainda a nossa alma espiritual, com a qual podemos conhecer sem
revelação, a espiritualidade, a liberdade, a imortalidade. A esta ordem
pertencem as verdades naturais que a razão por suas próprias forças
pode descobrir sobre Deus, Criador do Universo, Providência universal.
A visão do céu estrelado nos prova a
existência de uma inteligência pina que legislou todas as coisas. É ali
o ponto culminante da ordem da razão. Ela pode conhecer Deus
pelo reflexo das suas perfeições nas criaturas; ela porém não pode
conhecer a vida íntima de Deus; as criaturas são impotentes para no-la
manifestar. Elas não têm com Deus senão uma semelhança muito
imperfeita. Aquele que não conhecesse o Soberano Pontífice senão por
ter visto seu palácio do Vaticano, seus empregados, por saber o lugar
do seu nascimento, a data de sua elevação ao pontificado, este não
conheceria a vida íntima do Soberano Pontífice.
Portanto, a razão abandonada a ela
mesma não pode, apesar do progresso das ciências ou da filosofia,
chegar a conhecer a vida íntima de Deus. Mesmo se este progresso
continuasse por milhares de anos sem interrupção, ela não atingiria o
segredo das profundidades de Deus, ao lado do qual os segredos do
Oceano não são nada.
3. — Acima da ordem racional, há a ordem da verdade e da vida sobrenatural,
absolutamente inacessível aos sentidos e à razão. Os segredos desta
ordem, que são a profundidade mesma de Deus, sua vida íntima, nos foram
revelados por N. S. J. C.
Dizemos todas as manhãs, no fim da
missa, no Evangelho de S. João, "No princípio era o Verbo, e o Verbo
estava em Deus, e o Verbo era Deus; n´Ele estava a vida e a vida era a
luz dos homens. Esta luz resplandece nas trevas, e as trevas não a
compreenderam". Ninguém jamais viu Deus.
O Filho Unigênito do Eterno Pai no-lo
manifestou. "Mas as trevas não o compreenderam". Os homens cegos pelo
erro ou pela paixão, não perceberam a luz sobrenatural que N.S. lhes
trouxe, eles preferiram a luz da sua razão, como alguém que preferisse
miçangas a um diamante.
Há realmente três ordens,
a dos corpos, a dos espíritos e a da vida íntima de Deus e dos seus
santos. Assim como há numa igreja o adro exterior, a nave e o Santo dos
santos ou tabernáculo de Deus vivo.
Ninguém pode entrar no Santo
dos Santos, no céu, se não receber a revelação pina. Ela é
absolutamente necessária para se salvar. Por exceção, aquele
que não recebeu o batismo pode salvar-se sem a Fé, com as primeiras
verdades da revelação. As almas que nunca ouviram a pregação do
Evangelho nas regiões mais afastadas da África ou Oceania podem, se não
resistirem a voz da sua consciência e à graça interior, chegar de
fidelidade em fidelidade, e de graça em graça, à Fé. Deus, do seu lado,
fará o necessário para lhes revelar as verdades necessárias à
salvação, ainda mesmo que Ele tenha de enviar um Anjo ou um Missionário,
como mandou o Apóstolo S. Pedro ao Centurião "Cornélio".
Quantas vezes, missionários
desgarrados, encontraram pobres selvagens que estavam morrendo e os
esperavam antes de entregar suas almas a Deus.
Relata-se nos Anais das Missões, que um
Missionário muito desejoso de ir para a China pediu por muito tempo
aos seus superiores licença de partir para lá, e finalmente alcançou a
permissão; apenas tinha chegado no território da Missão, encontrou uma
velha mulher que o esperava para morrer. Ele a batizou, e logo depois
ficou possuído de uma tal nostalgia, que pediu para voltar para a
Europa e voltou.
Por aí pode-se ver que ele só foi à
China para a salvação desta alma. Uma alma é mais do que um mundo. Fora
a Providência pina que lá o enviara. Tal é a necessidade da fé.
Qual é a sua natureza íntima? Digamos
antes o que ela não é, para destruir as falsas noções que dela tem o
mundo, e veremos então melhor o que ela é.
A fé cristã não é um sentimento natural de confiança em Deus,
como hoje muitas vezes o pretendem os protestantes liberais, que negam
todo sobrenatural e que identificam de um modo sacrílego a fé pina a
um vago sentimento religioso todo natural, que se encontra em todas as
religiões.
Ainda mais porque a confiança
refere-se à esperança e não diretamente à fé, é mesmo a esperança que é
chamada confiança em Deus, quando ela descansa sobre a Fé nas
promessas de Deus. A Fé não é também uma opinião que considera o
catolicismo como a mais viva das religiões.
Esta opinião pode nascer facilmente da leitura da história; é uma opinião histórica e filosófica infinitamente inferior à Fé sobrenatural.
A Fé também não é uma certeza racional da
verdade do catolicismo. Pode-se bem convencer-se racionalmente, pelo
exame dos milagres que confirmam a pregação de Jesus e a vida da Igreja,
que as verdades propostas pela Igreja foram reveladas por Deus, mas
esta certeza racional que vem do exame dos milagres ou das profecias
ainda não é a Fé. Não se penetra ainda na intimidade da palavra
sobrenatural de Deus; não se concebe senão materialmente, pelos sinais
sensíveis que a confirmam.
O Padre Lacordaire pôs admiravelmente
este ponto em evidência na sua 17a. conferência em "Notre Dame". Ele
tinha experiência própria destas coisas, porque vira de perto várias
conversões. Ele escreveu: "Certo sábio que estuda a doutrina católica,
que não a repele, que quer crer mas não consegue, vê exteriormente a
doutrina católica, admite os fatos, sente a sua força, concorda que
existiu um homem chamado Jesus Cristo, que viveu e morreu duma maneira
prodigiosa, se enternece com o sangue dos mártires, com a vida da
Igreja, dirá quase: é verdade, e no entanto, nada conclui. Ele se sente
sufocado pela verdade, como se fica num sonho onde se vê sem ver.
Oprimido sobrenaturalmente por esta verdade que ele não pode sustentar
naturalmente, um dia este sábio ajoelha-se, sente a miséria do homem,
levanta a mão para o céu e diz: — "Do fundo de minha miséria, Ó Deus,
eu clamo por vós". — De repente alguma coisa se passa nele, uma escama
cai dos seus olhos, efetua-se um mistério. Ei-lo mudado. É um homem
doce e humilde de coração, pode morrer, conquistou a verdade.
Página admirável, na qual Lacordaire
expõe o mais fielmente possível a doutrina de Santo Agostinho e Santo
Tomás e excede nisto a muitos teólogos.
A fé é infinitamente superior a uma certeza racional, ela é uma luz sobrenatural interior que só Deus nos pode dar. Fides est donum Dei,
diz São Paulo. E Nosso Senhor disse a São Pedro: "Tu és
bem-aventurado, Simão, filho de João, pois nem a carne nem o sangue te
revelaram isto, mas meu Pai que está nos Céus".
O Padre Lacordaire diz ainda muito bem. "O que se passa em nós quando cremos é um fenômeno de luz íntima e sobrenatural.
Eu não digo que as coisas exteriores (principalmente os milagres) não
operem em nós como motivos racionais de credibilidade; mas a ação mesma
desta certeza suprema, a que eu me refiro, nos afeta
diretamente como um fenômeno luminoso"; eu digo mais, como um fenômeno
transluminoso. Como se diz transatlântico, para designar as regiões
situadas do outro lado dos mares Atlânticos.
Se fosse de outro modo, como quereriam que houvesse proporção
entre nossa adesão (que seria natural), racional a um assunto que
excede ou a natureza ou a razão? Ora, aí não há proporção entre nossa
inteligência e o objeto que lhe é apresentado, e não poderá haver
certeza.
Aqui nós temos que penetrar dentro de
uma ordem nova, o Infinito. — Acima da ordem sensível, da ordem
racional, acima da ordem angélica. A fé é pois uma certeza sobrenatural,
fruto duma graça, de um dom de Deus, duma iluminação e duma inspiração
do Espírito Santo, como o diz o Concílio do Vaticano I, que reproduz
exatamente a doutrina do II Concílio de Orange contra os
semipelagianos.
É ao mesmo tempo uma certeza que pode
ter um iletrado, isto é, uma certeza que não vem do raciocínio, nem da
história, nem da literatura, nem da ciência; coisa admirável, é uma
certeza que um pobre operário e uma criança podem ter maior e melhor
que os sábios: "revelasti ea parvulis." É uma certeza transluminosa,
apesar da obscuridade dos mistérios que não parecem obscuros para nós
senão porque luminosos demais em si mesmos, como o sol, cujo esplendor
ofusca o morcego; é uma certeza que exclui a dúvida, toda dúvida
deliberada.
Assim como uma intuição simpática põe
num instante entre dois homens o que a lógica não conseguiria em muitos
anos, às vezes, uma iluminação súbita esclarece o gênio.
Lacordaire diz ainda com muita razão,
sobre esse assunto: "Um convertido vos dirá: eu li, raciocinei, quis, e
não consegui; mas um dia, sem que eu possa dizer como, na esquisa de
uma rua, ao pé da minha lareira, eu não sei, mas já não era mais o mesmo, eu tinha fé;
depois li de novo, meditei, confirmei minha fé pela razão; mas o que
se passou em mim no momento da convicção final é de uma natureza
absolutamente diferente de tudo que havia precedido..."
Lembrai-vos dos dois discípulos que iam
a Emaús. Poder-se-ia para ilustrar esta doutrina, citar o exemplo de
Ernesto Psichari, neto de Renan. Ele tinha perdido a fé. Em Marrocos
percebeu que os europeus, apesar da sua civilização, não tinham mais
prestígio junto aos muçulmanos, porque não rezavam mais, porque não
sabiam mais nada do Além. Os muçulmanos julgavam-se superiores a eles.
Pouco a pouco no deserto, Psichari reconstitui seu Credo, não crendo
ainda, mas pressentindo que ia receber a graça da fé.
É o caso ainda de Massis, que não tinha
mais nenhuma objeção e, não obstante, só recebeu a graça da fé no
momento do batismo de sua filha.
Assim como o Dr. Leseur, que tendo se
casado com uma mulher muito cristã, converte-se um dia vendo-a rezar, e
hoje é: Padre Leseur, dominicano.
Qual é o papel e a necessidade desta luz sobrenatural da fé?
Ela ainda não nos dá a evidência dos
mistérios da salvação que permanecem obscuros. A fé é livre. É preciso
querer crer, sob a graça, para crer efetivamente.
Ela confirma a credibilidade racional destes mistérios garantidos por tantos sinais.
Mas sobretudo esta luz eleva nossa inteligência para nos fazer aderir sobrenaturalmente e infalivelmente à palavra sobrenatural do Pai Celeste.
De maneira que se pode aderir
formalmente a uma verdade sobrenatural, manifestada pela revelação
sobrenatural de Deus, sem que nossa inteligência seja
sobrenaturalizada, sobrenaturalmente esclarecida, proporcionada à
verdade pina que ela deve admitir? Sem esta graça haveria uma
desproporção sem medida.
Enquanto o demônio que perdeu a fé
infusa não adere senão materialmente à palavra de Deus, por causa da
evidência natural dos sinais milagrosos que a confirmam, o fiel, este,
esclarecido pela luz infusa da fé, compreende formalmente e
espiritualmente a palavra de Deus proposta pela Igreja, penetra-a, está
disposto a saboreá-la.
Ele tem como que um senso musical que
lhe permite apreciar a pina sinfonia da palavra de Deus, enquanto o
demônio perdeu o senso superior desta harmonia pina. Como disse Mons.
Gay, a luz da fé é "a coroação pina da nossa inteligência, um diadema
de luz celeste, com que a mão terna de Deus circunda nossa fronte
invisível, numa imensa extensão de nossas fronteiras espirituais...
nossa proporção intelectual com a vida íntima de Deus." "Ela é,
acrescenta ele, como que um ouvido sobrenatural, e também um olho, ou
melhor ainda, ela é a aurora da visão sobrenatural, enquanto que a
razão não é a aurora da fé."
"Fides est sperandaraum substantia rerum argumentum non apparentium" (Heb 11) "A fé é a substância das coisas que devemos esperar, a certeza daquelas que não vemos".
Os bens futuros estão na nossa fé, como a árvore está na semente, a flor na pivide, esperando o desabrochar.
A luz da fé não somente sobrenaturaliza
nossa inteligência, mas lhe dá uma certeza infalível dos mistérios da
salvação. Esta certeza que descansa sob a primeira verdade reveladora,
sob a autoridade de Deus, Criador da graça, é superior à dos sentidos, à
da razão. Estamos mais certos do valor infinito de uma Missa do que da
existência da terra sobre a qual nós andamos, ou da impossibilidade do
círculo quadrado. É por esta certeza, toda pina, que os mártires
morreram. Mais vale perder a vida do que a fé.
Por que então, apesar desta luz sobrenatural, os mistérios da salvação permanecem obscuros?
É porque nós não os vemos imediatamente
neles mesmos, mas somente na palavra pina que no-los revela. E não os
podemos ver diretamente, porque são luminosos demais para nossos olhos.
Por causa de seu demasiado esplendor nos parecem obscuros, como o sol
deve parecer obscuro ao pássaro da noite, que não pode suportar seu
brilho.
Esta virtude da fé está tão
profundamente impregnada na alma, que só o pecado da infidelidade pode
fazer perdê-la. Pode-se perder a Caridade e a graça santificante, sem
perder a fé; ela fica no pecador como a raiz da árvore que foi cortada e
quer nascer de novo. Por isso é que é tão grave o pecado contra a fé,
que rejeita a autoridade infalível de Deus. Mais vale perder a vista
que perder a fé, melhor ainda, mais vale perder a razão ou a vida, que
perder a fé.
Se é esta a necessidade e a natureza da fé, como viver no espírito de fé?
Para viver humanamente e não como um
animal, é preciso viver à luz da razão, e não somente à luz dos
sentidos: para viver cristãmente e não como um pagão, é preciso viver à
luz da fé e não somente à luz da razão. São Paulo na Epistola aos
Hebreus, cita os mais heróicos exemplos de espírito de fé. (11, 8 ss).
"É pela fé que Abraão, por ordem de Deus, deixa seu país, parte sem
saber para onde ia, para os países desconhecidos, que ele devia receber
como herança. É pela fé que o mesmo Abraão prontificou-se a imolar seu
filho único, Isaac, apesar de Deus lhe ter dito: 'É de Isaac que terás
tua posteridade.' Ele prontificou-se no entanto a imolá-lo por ordem
do Altíssimo, pensando que nada é impossível a Deus, mesmo ressuscitar
os mortos. Foi pela fé que Moisés deixou o Egito, sem temer a fúria do
rei, e ficou inabalável como se tivesse visto o Invisível. Foi pela fé
que os Israelitas atravessaram o mar Vermelho que engoliu os egípcios.
Foi pela fé que os profetas venceram os reis, efetuaram a justiça,
obtiveram o efeito das promessas, fecharam a goela dos leões. Foi pela
fé que outros sofreram os ultrajes e os chicotes, as prisões e as
correntes, foram lapidados, esfolados e morreram pelo fio da espada.
Eles partiram errantes, pelas montanhas, na indigência, na aflição e
angústia, aqueles dos quais o mundo não era digno. "Todos, diz São
Paulo (5, 14), morreram na fé, não tendo ainda recebido o bem
prometido, não tendo ainda visto o Cristo, mas eles contemplavam-no e
saudavam-no de longe, confessando que eles eram estrangeiros e
viajantes sobre a terra; pois homens que falam assim, mostram bem que
procuram uma Pátria.
Eis os exemplos que nos deram aqueles
que vieram antes de Jesus Cristo. Que faremos nós, que viemos depois de
Jesus Cristo, beneficiados pela sua luz e pela sua graça para viajar
para o céu sob a conduta de sua Igreja?
Para viver no espírito da fé, é preciso sempre considerar à luz da fé: Deus, nós mesmos, o próximo e os acontecimentos.
1. — Deus. Haverá
necessidade de dizer que é preciso considerar Deus à luz da fé?
Infelizmente é, e é muito necessário. Não consideramos muitas vezes Deus
através dos nossos preconceitos, à luz de nossos sentimentos muito
humanos, mesmo de nossas pequeninas paixões, contrariamente ao
testemunho que Ele dá de si mesmo na Sagrada Escritura? Não nos acontece
pensar, em nossa presunção, duma maneira mais ou menos consciente, que
a Misericórdia de Deus é para nós, e a Justiça para os outros? E ao
contrário, em certos momentos de desânimo, não nos acontece duvidar do
Amor de Deus por nós, de sua misericórdia sem limite?
Nós consideramos às vezes a infinita
perfeição de Deus do miserável ponto de vista de nosso egoísmo, de
nosso amor-próprio, de nossas suscetibilidades ressentidas, em vez de
considerá-la no ponto de vista de nossa salvação e do bem geral da
Igreja. No ponto de vista da fé, Deus aparece, não através de nosso
egoísmo, mas através da vida e da morte de Jesus, através dos mistérios
da Igreja, da Eucaristia e da Comunhão dos Santos.
Oh, como o olhar dos santos era puro! E como desde este mundo entreviam Deus pelos olhos da fé!
Santa Catarina de Sena, em seu
admirável "Diálogo", nos fala destes olhos da fé e das necessidades da
mortificação interior da vontade própria e do julgamento próprio.
Somente esta mortificação pode purificar nosso olhar e fazer cair esta
venda de nosso orgulho, este terrível "velamen", este véu do qual nos
fala São Paulo, que impede ver as coisas pinas, ou deixa ver apenas as
sombras e as dificuldades.
Consideremos Deus à luz da fé e também a
humanidade toda santa de nosso doce Salvador Jesus Cristo, seu Coração
Sagrado, sempre aberto para nós; a Virgem Maria, a Igreja, corpo
místico de Jesus Cristo. Consideremos do ponto de vista da fé os
Sacramentos, nossa comunhão quotidiana, a absolvição de cada semana,
nosso ofício, nossa leitura espiritual, a Sagrada Escritura, palavra de
Deus. Como tudo isto é prodigiosamente grande à luz da fé! E como tudo
isto empalidece à luz de nossos preconceitos e da rotina. Sob esta luz
apagada, as coisas mais sublimes tornam-se banais, a Santa Comunhão
não é senão uma cerimônia.
2. — Devemos nos ver, a nós mesmos, à luz da fé.
Se não nos virmos senão à luz natural,
só vemos em nós as nossas qualidades naturais e nos exaltamos; vemos
também às vezes os nossos defeitos e desanimamos.
Freqüentemente esquecemos de ver à luz da fé os tesouros sobrenaturais que o Senhor depositou em nós, e os obstáculos que os impedem de frutificar.
O tesouro sobrenatural que trazemos em
nós é a graça recebida no Batismo e restituída na absolvição; não é a
graça a vida pina, germe da glória? O tesouro sobrenatural que trazemos
em nós é o fruto das comunhões quotidianas. O tesouro sobrenatural que
trazemos em nós é a Santíssima Trindade que habita em nós. O tesouro
sobrenatural que trazemos em nós é a vocação que nos alcançará, se não
resistirmos a ela, todos os socorros necessários, para chegar à
perfeição e finalmente ao céu.
Os obstáculos são falta
de espírito sobrenatural, de espírito de fé, a leviandade que nos faz
falar e agir como pagãos, que nos tira o recolhimento pelo qual se
reconhece um discípulo de Jesus Cristo. Os obstáculos são ainda o
desejo de ser a cabeça, quando talvez devemos nos contentar de ser a
mão.
3. — Consideramos bastante o próximo à luz da fé?
Muitas vezes vivemos à luz natural da
razão deformada pelos nossos preconceitos, nossas paixões, nosso
orgulho, nosso ciúme, e desde então aprovamos no próximo aquilo que
humanamente, naturalmente nos agrada. Aquilo que é conforme aos nossos
gostos naturais, aos nossos caprichos, aquilo que nos é útil, aquilo
que nos faz valer, aquilo que ele nos deve. Condenamos nele
aquilo que nos incomoda, muitas vezes o que o torna superior a nós,
aquilo que nele nos faz sombra. Quantos julgamentos temerários,
julgamentos duros, impiedosos provém do nosso olhar obscurecido pelo
amor próprio e pelo orgulho. Quantas maledicências e calúnias mais ou
menos conscientes.
Se nós soubéssemos ver o próximo à luz
da Fé, com o olhar espiritual muito puro, então veríamos em nossos
superiores, os representantes de N. S. e nós lhe obedeceríamos sem os
criticar, ao pé da letra e de todo coração, como a Nosso Senhor Ele
mesmo.
Nas pessoas, que naturalmente não nos
são simpáticas, nós veríamos antes de tudo, as almas resgatadas por
Nosso Senhor, que fazem parte do seu corpo místico e que talvez estejam
mais perto do que nós do seu Coração Sagrado.
Nosso olhar sobrenatural atravessaria
este envelope opaco de carne e de sangue que nos impede de ver as
almas, e faz com que muitas vezes vivamos longos anos ao lado de belas
almas sem perceber.
É necessário merecer ver as almas, o que nos permitirá de lhes dizer verdades salutares e de ouvi-las da parte delas.
Não é por acaso que duas almas se
encontram. Assim como as pessoas que naturalmente nos agradam, se nós
as víssemos bem à luz da Fé, descobriríamos nelas qualidades e virtudes
sobrenaturais que elevariam muito nossa afeição e a purificariam.
Veríamos nelas também, com benevolência, os obstáculos ao reino
perfeito de Nosso Senhor, e nós poderíamos, com a verdade caridade,
dar-lhes um conselho amigo, aplicar o que Santo Agostinho diz em sua
regra sobre as delicadezas da correção fraternal, que deve proceder do
amor de Deus e o fazer crescer na alma de nosso próximo.
4. — São os acontecimentos que
precisaríamos ver à luz da Fé, para viver verdadeiramente no espírito
da Fé. Os acontecimentos felizes, para que eles não nos exaltem e os
acontecimentos infelizes, para que eles não nos desanimem.
Digamos que tudo, mandado ou permitido
por Deus, e que tudo, mesmo o mal, deve finalmente, queira ou não
queira, concorrer para sua glória.
Em todo acontecimento podemos encontrar um aspecto sensível, acessível aos sentidos, um aspecto racional, acessível à razão, à história profana; são as leis naturais que governam os fatos — depois há um aspecto sobrenatural, acessível à Fé. E o lado pelo qual este acontecimento concorre à Glória de Deus é o dos eleitos.
Vede, à luz da Fé, a expulsão dos
religiosos e das religiosas, ou das atrocidades cometidas ultimamente
pelos Comunistas na Espanha.
Existe nestes acontecimentos qualquer
coisas que escapa à razão, mesmo à perspicácia maligna dos
perseguidores. Os sentidos vêm nesses acontecimentos um manancial de
dores, a razão, uma obra iníqua. Em face da Fé, existe neles muito
mais. Existe aí um castigo para muitos. Existe aí uma provação para
todos, provação que não nos deve lançar no abatimento, mas que é a
condição dum bem superior.
A Igreja é perseguida. Nosso Senhor
está ao seu lado; Ele parece dormir como dormia na barca durante a
tempestade no Lago de Genesareth; mas uma só palavra foi suficiente
para apaziguar os ventos e as vagas.
Se vemos este acontecimento à Luz da
Fé, não ficaremos muito surpreendidos. Nosso Senhor o anunciou no seu
Evangelho. Não ficaremos irritados nem desanimados. Rezaremos pelos
perseguidores, pelos perseguidores os mais aguerridos, e pensaremos que
nossa vida religiosa deve ser mais fervorosa que no passado. Vede as
guerras à luz da Fé, as pisões dum país, as rivalidades mesmo entre os
católicos. Vede todos esses acontecimentos à luz da Fé, os
acontecimentos felizes não nos exaltarão, os infelizes não nos
abaterão.
Mesmo as injúrias, depois do primeiro
sobressalto da natureza, nos parecerão como permitidas por Deus para o
progresso de nossa alma, como quando Davi foi insultado por Semei.
Nossa Mãe do céu viveu plenamente do
espírito de Fé, sobretudo aos pés da Cruz. Quando Jesus parecia
definitivamente vencido, ela não cessou de crer que Ele era o Filho de
Deus vivo e que dentro de três dias ressuscitaria como Ele havia
predito.
Para entrar na profundidade ou nas
atitudes de Deus, é preciso que a Fé se torne penetrante e saborosa; é
preciso que, esclarecida pelo dom da inteligência e da sabedoria, ela
se torne contemplativa. Para isto, é preciso saber sacrificar certas
exigências injustificáveis da razão raciocinadora; é preciso lembrar-se
que acima da evidência racional, existe o mundo infinitamente superior
dos mistérios sobrenaturais. Da mesma maneira, diz Santo Tomás, é
preciso que o sol se esconda para que se vejam as estrelas e as
profundidades insondáveis do firmamento, aquele que não quer ver senão à
luz da razão e não se deixa conduzir mais alto, pela luz da Fé,
assemelha-se àquele que não quis contemplar o esplendor do céu
estrelado porque não o podia ver à luz do sol. Se, ao contrário, o sol
desaparecesse, é um número imenso de estrelas, outros sóis, que nos
aparecem na beleza da noite: é o símbolo esplêndido das verdades da Fé e
de sua harmonia na obscuridade, superior à noite do espírito.
(A Ordem, Janeiro de 1939. Digitação e atualização ortográfica: PERMANÊNCIA).
Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/415.


